segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Discos clássicos, notas e escritores, ou o motivo de não sermos novos Nostradamus


Por Marcos “Big Daddy” Garcia


Nós, escritores do cenário Metal, temos muitas responsabilidades a cada letra que postamos em qualquer tipo de texto. Mas as resenhas de discos são as de maior peso. Há muita coisa envolvida, mas por hoje, pretendo falar da questão dos chamados discos clássicos com aqueles que escrevem, e sobre notas aferidas.

Antes de tudo, é preciso conceituar o que é um disco clássico.

Não sei se todos possuem a mesma idéia, mas de uma forma pessoal, este autor adota o pensamento de que um disco clássico não um disco marcante ou o ápice criativo (musicalmente falando) de uma banda, mas sim um disco que se torna uma referência para um determinado gênero. E em geral, os discos clássicos servem para a canonização de um gênero. “Cânone” é uma palavra hebraica que significa “vara”, um instrumento de medida usado na antiguidade pelo povo em questão, logo, “canonizar” uma vertente do Metal ou um estilo musical qualquer é aferir suas características mais fundamentais, aquilo, mesmo variando de banda para banda, não muda.

Um bom exemplo: óbvio que fãs do METALLICA tendem a ser exagerados em suas opiniões, mas “Metallica” (o famoso “Black Album”) não seria considerado um clássico dentro desses parâmetros. E notem que este é o maior sucesso comercial do grupo. O disco do quarteto que se enquadraria no rótulo de “clássico” seria “Master of Puppets”.

Explicando: não é pelo seu conteúdo musical, já que a banda já havia apresentado o Thrash Metal ao mundo em “Kill ‘Em All”, mas porque “Master of Puppets” é o Santo Graal do Thrash Metal, o disco que definiu como o gênero iria soar. E ele virou molde justamente por sua gravação seca, bem feita e que deixa as melodias fluírem sem que se perca a agressividade. Se pararem para pensar, qual banda de Thrash Metal não seguiu este padrão depois do “Master...” ser lançado? Nem mesmo o SLAYER fugiu dele, buscando sempre soar limpo, mas com agressividade (e no caso deles, essa agressividade flui dos timbres que Kerry King e seus comparsas escolhem para tocarem). Antes de “Master...” vir ao mundo, ou se tinha gravações de Metal tradicional (o “Ride the Lightning” é assim), com as melodias muito evidentes e a agressividade ficando em segundo plano, ou o oposto: gravações muito sujas e as melodias acabavam mais subjetivas.

Perceberam?


Ainda tendo “Master...” como exemplo, quem o tornou um clássico do gênero?

Eis o ponto chave: não foi a crítica. Não, não fomos nós, escritores de Metal, que lhe conferimos esse status.

Por isso disse que autores de resenhas não são Nostradamus, o conhecido profeta: não temos condições de saber o futuro, não sabemos nem mesmo o que ocorrerá em meros 5 minutos. E como poderíamos nos dar o direito a aferir que um disco se tornará um clássico?

Mesmo “Master...” não foi entendido de todo quando saiu.

Muitos fãs acharam aquela gravação estranha na época (eu sei por ser da época), e alguns críticos que trituraram o disco. Ainda podem ser encontradas referências a esses “reviews” na internet.

Creio que o leitor se pergunta “como pode um escritor falar mal de um disco clássico?”, mas a resposta é simples, batendo na mesma tecla: nenhum crítico vê o futuro. Nenhum de nós tem como prever a mais ínfima possibilidade de um disco se tornar um clássico ou não. Nem nós, e nem ninguém. Hoje, é fácil olhar para 1986 e aferir que “Master...” é um clássico, e o que qualquer um via na época é que o METALLICA havia lançado mais um grande álbum. Mais nada.

A única coisa que pode nos dar um “insight” se um disco se tornará um clássico ou não é o tempo. Sim, o tempo, pois conforme ele vai passando, o disco em questão vai assumindo o papel de “planta baixa”, ou seja, se tornando uma referência sonora, não importando o que o crítico diga sobre ele.


Alguns exemplos: o finado Lester Bangs crucificou o primeiro disco do BLACK SABBATH na revista Rolling Stone. O mesmo ergueu altares para “Metal Machine Music” de Lou Reed (de quem ele era fã incondicional, segundo boatos) como o “melhor disco já feito”.

Eis os reviews de ambos:



Deixando de lado o que penso particularmente do finado (que é referenciado como o maior crítico de Rock da América por Jim DeRogatis, conforme podem confirmar aqui), isso já demonstra bem como não prevemos o futuro. Aliás, julgamos um disco conforme o presente, algo que muitos leitores não concebem.

Em termos de Brasil, creio que há casos interessantes: tanto o EP “Apocaliptyc Raids” do HELLHAMMER como o EP “Morbid Tales” do CELTIC FROST foram massacrados por aqui (o do HELLHAMMER, então, em muitas revistas pelo mundo). O próprio “Seven Churches” do POSSESSED tomou um 7,5 em um review por aqui, onde a banda foi chamada de repetitiva pelo autor. Não, não estou criticando os colegas, pois entendo que, na época, essas bandas realmente soavam muito estranhas. Hoje, vocês podem idolatrar os discos e chamar cada um deles de clássico (como o são), mas na época em que o Metal extremo ainda estava engatinhando, como julgá-los com mais profundidade, com conhecimento de causa? Já pensaram no choque que um fã de bandas como URIAH HEEP, BLACK SABBATH ou DEEP PURPLE teria ao ouvir os discos acima? E lembrando que eram anos de puro radicalismo e amadorismo, logo, procuro não responsabilizá-los por errarem. Poucos acertariam.


Em contrapartida, na mesma edição da publicação que me refiro e que possui o review de “Seven Churches”, duas resenhas tiveram notas bem altas, mas são de bandas do segundo time: “Open the Gates” do MANILLA ROAD, e o primeiro álbum do NASTY SAVAGE. Nota máxima para ambos, e muitos fãs sequer ouviram esses discos até hoje. E antes que pensem besteiras, não estou dizendo que eles não merecem essas notas. Podem merecer, mas não são clássicos, não se tornaram fundações de algo novo. Mas “Seven Churches”, com 7,5, o é.

Por isso eu bato na tecla: julguemos o disco no tempo atual, e esqueçamos o futuro. Se ele se tornará um clássico ou não, somente o tempo dirá.

Aproveitando, gostaria de abordar mais um tema correlacionado a este: notas de discos e essa noção de “clássico”.

Aparato encontrado com alguns integrantes de bandas por conta de resenhas negativas...

Já notei que existem várias correntes de pensamento entre os escritores: alguns adotam que 10 seria para um disco clássico (da qual eu discordo completamente pelos motivos já expostos), outros que 10 é um disco que satisfaria a todos. Neste último caso, nunca se daria 10, já que nunca existirá um disco que irá conseguir agradar gregos e romanos. E dele eu discordo completamente.

Elucidando o meu pensamento: sou um Metalhead com 34 anos de Metal nos ombros. Desta forma, li muitos reviews das mais variadas formas, e mesmo de pensamentos diferentes. E a forma que eu adoto (que não sei se faz parte desta ou daquela corrente de pensamento) é simples, e a grosso modo, é esta:

1. Ouço o disco - Não necessito de gostar da banda/estilo em questão.

2. Analiso a proposta sonora da banda - se é algo diferente ou não do que já existe, e como o grupo aborda sua sonoridade, e se possui personalidade.

3. A produção sonora - Em especial, não me preocupo se a qualidade sonora é do nível do IRON MAIDEN ou do DARKTHRONE, mas se ela está adequada ao que o grupo se propõe. Óbvio que a banda precisa se fazer entender, mas não adoto um modelo de qualidade sonora como “a mais correta de todas”. Mas óbvio que se vier algo muito cru ou sujo além do ponto, vou abrir a boca (ou digitar, como queiram).

4. As músicas em si - Se possuem energia, pegada e se não existem variações no nível de qualidade musical durante o CD. Lembro que músicas como “Flash of the Blade” do “Powerslave”, e “Gangland” do “The Number of the Beast” (ambas do IRON MAIDEN) acabam caindo nesse grupo das músicas que destoam do conteúdo. E este tipo de canção pode ser ruim, pode ser bom, mas não está no patamar das outras, e isso não é questão de gosto pessoal. É uma comprovação empírica.

Óbvio que existem mais considerações, mas de forma bem direta, é isso.

E não tenho problemas com a nota 10, já que quem me diz isso não é um formato pré-estabelecido de crítica, uma decisão editorial, mas apenas o disco em si. Esse é meu foco, nada mais. E se percebo que o disco é perfeito em tudo, não tenho motivos para negar a nota mais alta porque algo me impede. Mesmo porque se eu fosse obrigado a seguir padrões, eu desistiria, pois isso me tiraria a liberdade que gosto de ter.

Encerrando, gostaria de frisar mais uma vez que não estou criticando meus colegas escritores, não desejo mudar o mundo, mas que as pessoas pensem. Isso mesmo, que elas pensem por si mesmas.


Afinal, somos todos fãs de discos que, sejam clássicos ou não, nós gostamos.

No mais, podem comentar, sugerir, criticar e procurarei ler cada opinião dada.


MYRKGAND - Myrkgand (Álbum)


2017
Nacional

Nota: 9,1/10,0

Tracklist:

1. Wanderer
2. The Elemental King
3. Arachnodraco
4. Demon of Ice
5. Orcs & Ogres Brood
6. Dwarvenquest
7. Dangerous Dungeon
8. Shadowforge
9. Mysterious Malediction
10. O Vale da Agonia
11. A Ghastly Aftermath


Banda:


Dmitry Luna - Vocais, todos Instrumentos

Convidados:

Eduardo “Warmonger”Amorim - Bateria
Vito Marchese - Violão baritone em “Wanderer”, “Dwarvenquest”, “A Ghastly Aftermath”
Diego DoUrden - Vocais em “Demon of Ice” como o Demônio do gelo, guitarras adicionais e corais em “Mysterious Malediction”
Lord Vlad Vladimir Senna - Vocais limpos em “Orcs and Ogres Brood”
Rafael Cadena - Guitarra solo em “Dangerous Dungeon”
Armando “Beelzebub” - Guitarra solo em “Shadowforge”
Mike LePond - Solo de baixo em “Mysterious Malediction”
Antonio Araújo - Guitarra solo “Mysterious Malediction”
Andre Tulipano - Vocais limpos em “Mysterious Malediction”
Jairo Neto - Corais em “Mysterious Malediction”
Alysson Drakkar - Vocais e letras em “O Vale da Agonia”
Jafet Amoêdo - Segundo solo de guitarra em “O Vale da Agonia”


Contatos:

Site Oficial:
Twitter:
Bandcamp:
Assessoria: http://www.metalmedia.com.br/myrkgand/ (Metal Media)


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


Projetos musicais são sempre recebidos com muitas expectativas, uma vez que nomes de convidados podem causar certo alvoroço. E alguns surpreendem justamente pela identidade que encontramos neles. E discos que nascem desse tipo de iniciativa, em geral, possuem um saldo bem positivo se o elaborador do projeto estiver centrado no que quer. E o MYRKGAND, uma one man band de João Pessoa (PB) faz bonito em seu disco de estréia, “Myrkgand”.

A mente por trás do MYRKGAND é Dmitry Luna, um multi-instrumentista com passagem por bandas como MALKUTH, NECROHUNTER, WARCURSED, entre outros. Mas se buscarem similaridades musicais entre estes grupos e o atual projeto, darão com a cara no muro. O MYRKGAND é um trabalho focado no Epic/Folk Black/Death Metal, bem criativo e agressivo, mas com muitas passagens melódicas mais atmosféricas. É bem soturno e climático, mas pesado e melodioso, e criativo o tempo todo. E sim, criatividade e energia é o que não falta no disco, bem como uma identidade sólida que vem sendo moldada a mais de 5 anos. E, além disso, as músicas de “Myrkgand” são repletas de belas partes melodiosas entremeadas com agressividade que nos envolvem de uma maneira que nos é impossível deixar de lado.

Ou seja, “Myrkgand” é um disco excelente, sem meias palavras.

Dmitry dividiu a responsabilidade de produzir o disco com Diego DoUrden, baixista/vocalista/tecladista do MYSTIFIER. E tudo foi gravado, mixado e masterizado no Darkside Studio, em Recife. A gravação esboça crueza e agressividade um pouco além do ponto, mas sempre tendo em mente que o produto final deveria ter sua dose de clareza. E apesar de poder ter sido melhor, a qualidade sonora é muito boa, com bons timbres nos instrumentos, tudo casando com a proposta sonora do grupo. E a arte da capa é um trabalho de Emerson Maia, com colorização de Antônio César, sendo que o logo é de Christophe Szpajdel, tudo visando esboçar o amálgama de influências que formam a música do MYRKGAND.

Musicalmente, o MYRKGAND, como já dito, é um trabalho musical bem feito, com arranjos musicais bem feitos, e uma atmosfera que mixa o épico e o obscuro sem problemas. E para deixar tudo ainda mais interessante, temos a participação de convidados de várias bandas, como MYSTIFIER, NOVEMBERS DOOM, THE KAHLESS CLONE, INFESTED BLOOD, MALEFACTOR, CANGAÇO, SYMPHONY X, KORZUS, ONE ARM AWAY, STEEL WARRIOR, CRUOR, E LUXÚRIA DE LILLITH, todos com um toque diferenciado e contribuindo para que “Myrkgand” tenha um brilho todo próprio.

Se o disco tomou 5 anos entre a fundação do projeto até seu primeiro álbum, esse tempo foi mais que suficiente para amadurecer as idéias e tornar “Myrkgand” um excelente trabalho. As 11 canções formam um contexto bem compacto, sendo difícil destacar uma ou outra.

O disco começa a pegar fogo na envolvente e destruidora “The Elemental King” e suas passagens atmosféricas assentadas sob um ritmo não muito veloz (um belo trabalho de vocais, onde timbres guturais e rasgados se alternam, fora teclados muito bem postados), as melodias soturnas criativas de “Arachnodraco” e da Epic/Black Metal “Demon of Ice” (ambas mostrando boa diversidade de ritmos, mas com ótimos riffs de guitarra), a mais trampada e com uma sonoridade mais sujo “Orcs & Ogres Brood” (onde o foco é mesmo no trabalho das guitarras e vocais, que apresentam uma diversidade de timbres bem interessante, que vai do rasgado ao limpo, passando pelo gutural), o jeitão Pagan/Epic de “Dangerous Dungeon” e a força rítmica de baixo e bateria (o clima segue o andamento mais cadenciado e pesado, embora existam partes rápidas), a ríspida e climática “Shadowforge” (boas passagens de guitarra e algumas mudanças de andamento bem sacadas estão presentes, bem como vocais muito bons), o lado mais tradicional do Black Metal infuso com influências épicas pontuais de “Mysterious Malediction” e seu ótimo trabalho de riffs (fora o solo de baixo, que está de primeira), e este mesmo lado mais Black Metal de raiz surge na melancólica e densa “O Vale da Agonia”, onde os vocais mais uma vez dão um show particular. “Wanderer”, “Dwarvenquest” e “A Ghastly Aftermath” são instrumentais que visam dar um toque mais atmosférico e transcendental ao disco.

Sim, “Myrkgand” é um disco ótimo, honesto e que merece aplausos. Mas esperamos que ele seja apenas o primeiro de muitos discos do MYRKGAND.


domingo, 27 de agosto de 2017

HELLION COLLECTION V (Coletânea)


2017
Nacional

Nota: 8,8/10,0

Tracklist:

1. ATTICK DEMONS - Circle of Light
2. SOULSPELL - The Second Big Bang
3. MONSTER TRUCK - Don’t Tell Me How to Live
4. FUZZ EVIL - Killing the Sun
5. RIVAL SONS - Thundering Voices
6. CRACK JAW - Danger
7. RIFF RAFF - Give the Dead Man Some Water
8. LUCIFER’S FRIEND - Demolition Man
9. BODY COUNT - Walk With Me
10. PAIN OF SALVATION - Meaningless
11. GIRAFFE TONGUE ORCHESTRA - Adapt or Die
12. RIVAL BONES - You Know Who You Are
13. ROCK GODDESS - It’s More than Rock and Roll
14. SEVEN SPIRES - The Cabaret of Dreams
15. MARIUS DANIELSEN - Chamber of Wisdom
16. IRON FIRE - Iron Eagle
17. AYREON - Star of Sirrah
18. BEYOND THE BLACK - Dies Irae


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


Quando vemos coletâneas, sempre fica a idéia que um selo/banda está caçando níqueis. Mas algumas fogem dessa regra, pois realmente buscam apresentar todo o “cast” de um selo aos fãs de uma forma mais simples e barata para todos. E a “Hellion Collection V”, mais um volume da coleção lançada pela gravadora Hellion Records, nos brinda com bandas lançadas pelo selo, e algumas surpresas contidas nela são sublimes.

Um dos diferenciais é a mistura entre nomes fortes e outros que estão começando, entre bandas do Brasil e outras do exterior, sem contar que o radicalismo passa longe do disco. Sim, você terá um autêntico “tem pra todo mundo” em mãos, mas que é fascinante trazendo músicas selecionadas a dedo, e que são todas ótimas.

Em termos de qualidade sonora, todas as faixas estão com uma gravação de primeira, só se diferenciando umas das outras pela abordagem estilística de cada banda, já que alguns necessitam de um som mais limpo (como o SOULSPELL), outros de algo mais orgânico (como o RIVAL SONS), e outros com uma qualidade estilo “pé na porta, bicuda de coturno nos dentes” (como o BODY COUNT). Mas cada uma tem sua beleza própria.

Todas as bandas estão ótimas, com canções escolhidas com muito cuidado. Mas em meio a 18 canções, algumas realmente de destacam, como a força tradicional do ATTICK DEMONS em “Circle of Light” (e seu ótimo trabalho nas guitarras), a sinfonia Metal do SOULSPELL em “The Second Big Bang”, a sujeira Stoner Rock grooveada do MONSTER TRUCK em “Don’t Tell Me How to Live” (reparem no vocal com um jeitão Bluesy essencial), as melodias envolventes do CRACK JAW na ótima “Danger”, o veterano Rocker LUCIFER’S FRIEND com as lindas melodias envolventes de “Demolition Man” (e o ótimo trabalho de John Lawton nos vocais é sempre fabuloso), o demolidor de queixos e preconceitos chamado BODY COUNT e sua pegada Hardcore/Thrash Metal com vocais de Rap em “Walk With Me” (uma surra de riffs, pegada pesada na base rítmica e muitos vocais insanos), o trabalho eclético e intenso do supergrupo GIRAFFE TONGUE ORCHESTRA em “Adapt or Die”, a crueza das Primeiras Damas do Hard’n’Roll ROCK GODDESS no hino “It’s More than Rock and Roll” (cru, direto e simples, mas sempre de alto nível), a pancada sinfônica agressiva do SEVEN SPIRES na grudenta “The Cabaret of Dreams” (que vocais de primeira!), a belíssima e envolvente “Chamber of Dreams” de MARIUS DANIELSEN (um Power Metal épico e melodioso com belas linhas vocais e riffs perfeitos), e o bom gosto sinfônico e criativo do BEYOND THE BLACK na excelente “Dies Irae”.

Uma ótima coletânea, daquelas que se coloca para tocar em repetição infinita.

MARILLION - Marbles in the Park (DVD)


2017
Nacional

Nota: 10,0/10,0

Tracklist:

1. The Invisible Man
2. Marbles I
3. Genie
4. Fantastic Place
5. The Only Unforgivable Thing
6. Marbles II
7. Ocean Cloud
8. Marbles III
9. The Damage
10. Don’t Hurt Yourself
11. You’re Gone
12. Angelina
13. Drilling Holes
14. Marbles IV
15. Neverland
16. Out of This World
17. King
18. Sound That Can’t Be Made
19. Trailer do documentário “Unconventional”


Banda:


Steve Hogarth - Vocais, teclados, guitarras, percussões
Steve Rothery - Guitarras, violões
Mark Kelly - Teclados, samples e efeitos, backing vocals, programação
Pete Trewavas - Baixo, backing vocals, guitarras adicionais, samples e efeitos
Ian Mosley - Bateria, percussão


Contatos:

Bandcamp:
Assessoria:

E-mail: band@marillion.com

Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


Quando uma banda lança um DVD ao vivo, muito se espera dele. Ainda mais se tratamos de um grupo influente e reconhecido. E ainda mais quando o nome é de uma banda do calibre do MARILLION. E graças aos esforços da Shinigami Records, os fãs brasileiros terão acesso mais barato ao DVD “Marbles in the Park”. E que show, pois se no CD duplo já era ótimo, no DVD é uma obra fantástica.

O DVD é uma gravação do evento “Marillion Weekend”, uma tradição do quinteto de tocarem um disco deles na íntegra a cada dois anos. Este é a edição de 2015, gravado em 21 de Março no Center Parcs, Port Zelande, na Holanda, e o disco contemplado é “Marbles”, de 2004. E como este autor afirmou na resenha do CD duplo, “Marbles” não é o disco mais clássico do grupo, mas ainda assim é uma obra de primeira, tanto que é seu maior sucesso comercial, e sua música  fala alto à mente e ao coração de qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade musical. Embora o som do grupo seja considerado “papo-cabeça”, é algo maravilhoso de se ver e ouvir.


A gravação e mixagem da parte sonora foram feitas por Michael Hunter, assim como é no CD. E ele deixou tudo limpo, com uma captação perfeita do que o grupo fez na apresentação, inclusive a participação do público. Já a parte visual é um trabalho de Tim Sidwell (que produziu, dirigiu e editou o trabalho) e de Jeremy Mason (co-produziu e é o diretor de fotografia), e souberam escolher muito bem as cenas. Todos os takes, closes e panorâmicas são ótimos, com as imagens se alternando sem ter um ritmo muito rápido. O resultado do trabalho deles é soberbo.

A apresentação gráfica do DVD é ótima. A arte gráfica e design de Simon Ward e as fotos de Alison Toon são perfeitas, dando todo o feeling ao vivo que o MARILLION precisa para o DVD. Mais fotos seriam bem vindas, mas já está excelente como está.

Novamente referenciando o review feito para o CD duplo, o MARILLION nunca foi unanimidade, já que os fãs mais fundamentalistas do Rock Progressivo (sim, existem bobões em todos os estilos) acham a banda comercial demais, enquanto o pessoal que gosta de Pop acha o som intimista e viajandão demais. A crítica os escrachava nos anos 80, mas o tempo, senhor de toda a sabedoria, mostrou que eles haviam vindo para ficar e conquistar. E aqui estão eles, promovendo uma sonoridade intimista, cabeça e introspectiva, cheia de influências de música Folk e Clássica, e sempre de bom gosto e que nos embala gentilmente. E não é à toa que são um sucesso nos dias de hoje, pois suaram a camisa e aguentaram muita porrada, coisa que desanimaria muitos.

Por serem um dos representantes mais conhecidos do que chamamos de Neo Progressive Rock, o aparato de palco é fantástico, com um jogo de luzes sensacional, um telão ao fundo exibindo closes da banda e imagens aleatórias que têm (ou não) muito a dizer sobre as canções em si. E, além disso, o quinteto é bem solto no palco, além de usarem apenas os aparatos tradicionais (guitarra, baixo, bateria, teclados e vocais) durante a apresentação, com alguns samples de narrativas e sons ambientais. É inebriante.

O repertório é quase todo de “Marbles”, trazendo as ótimas “The Invisible Man”, “Genie”, “Fantastic Place”, “The Only Unforgivable Thing”, “Ocean Cloud”, “The Damage”, “Don’t Hurt Yourself”, “You’re Gone”, “Angelina”, “Drilling Holes”, “Neverland”, que são entremeadas pelas quatro instrumentais climáticas “Marbles I”, “Marbles II”, “Marbles III” e “Marbles IV”. Todas são maravilhosas, e com a banda soando tão coesa, que não cabe exaltar uma ou outra e suas qualidades, pois o nível de composição e de arranjos do grupo é fantástico. E ainda temos “Out of This World” e “King”, de “Afraid of the Sunlight”, e “Sound That Can’t Be Made”, do disco de mesmo título, já que o tempo total do show de 132 minutos, ou seja, são duas horas e 12 minutos de uma viagem maravilhosa para todos os sentidos.

E para fechar, ainda temos o trailer do documentário “Unconventional”.

Mais uma vez: o DVD tem versão nacional, logo, corra até as lojas e adquira o seu antes que esgote!


sábado, 26 de agosto de 2017

EVIL SENSE - Fight for Freedom (Álbum)


2017
Nacional

Nota: 8,7/10,0

Tracklist:

1. No More Lies
2. Embrace of Death
3. Império Headbanger
4. Traveling by Warriors Land
5. Force and Honor
6. Unit 731
7. Thrash Anger
8. Fight for Freedom
9. Evil Sense


Banda:


Wagner “Capú” - Vocais, guitarras
Thiago “Suco” - Guitarras
Hugo Rodrigues - Baixo
Ricardo Alves - Bateria


Contatos:

Site Oficial:
Twitter:
Instagram:
Bandcamp:
Assessoria: http://www.metalmedia.com.br/evilsense/ (Metal Media)


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


Muito da fragmentação do Metal nacional nasce do radicalismo musical. E ele é ramificado em vários aspectos danosos, e é visto com mais clareza no meio das bandas com som mais retrô, especialmente nas que rebuscam o som dos anos 80. Não existe “radicalismo consciente” ou “radicalismo essencial”, apenas distorções de um grande mal que nos assola e enfraquece como cenário musical. E é uma pena tão poucos serem agregadores, como o quarteto EVIL SENSE, de São Paulo. Uma banda experiente, lutou por 17 anos, mas por fim, chegaram ao seu primeiro disco, “Fight For Freedom”.

O trabalho do quarteto é claramente influenciado pelos anos 80, aquele formato Thrash/Speed Metal de raiz, quando bandas como EXODUS, SLAYER, DESTRUCTION, SLAYER da fase “Show No Mercy” e outros ainda buscavam o santo Graal do gênero. Mas o mais interessante é que eles não se furtam de usar elementos do Metal tradicional, do Crossover e mesmo do Death Metal em seu trabalho, agregando valor e identidade à sua música. O mais legal é que a referência Old School não tornou o trabalho deles datado ou bolorento, mas vibra com energia e identidade. E isso os diferencia de uma legião de clones Old School do Brasil.

A sonoridade reflete a dificuldade de uma luta de 3 anos. Apesar de não ser a ideal (pois soa mais crua do que o necessário), Alexdog (baixista/vocalista da banda TENEBRÁRIO) e o próprio quarteto se esforçaram por uma sonoridade que fosse boa e pesada, além de clara, com a idéia da banda em rebuscar um pouco o som dos anos 80. Ficou a contento, mas poderia ser bem melhor, embora os timbres instrumentais estejam muito bons. Mas torno a dizer: se lerem por aí como foi sofrido o processo para eles, mais as dificuldades econômicas que nosso país passa há dois anos, vocês entenderão ainda mais o grupo. Mais uma vez, indico uma sonoridade semelhante ao que o TOXIC HOLOCAUST e o ENFORCER estão fazendo em termos sonoros nos últimos discos, pois resgatam o feeling dos anos 80, mas com uma qualidade mais limpa.

A arte gráfica, por sua vez, ficou nas mãos da A arte da capa ficou nas mãos da Pirate Fox Design, mostrando-se simples e funcional, mas bem acabada. Ou seja: antenada com que o grupo faz musicalmente.

Se o trabalho do EVIL SENSE não prima pela originalidade, tem uma essência única uma identidade forte e bem agressiva. E as músicas são muito boas, com passagens onde todos os clichês dos anos 80 aparecem, mas com uma roupagem diferente, com bons arranjos de guitarra, solos eficientes, vocais com timbres agressivos quase que “hardcorizados”, baixo e bateria com boa técnica e apelando para a brutalidade vez por outra.

“Fight for Freedom” é um disco muito bom, com 9 faixas bem legais e que empolgam. Mas se destacam a agressiva e com aquele jeitão Thrasher alemão dos anos 80 “No More Lies” (belo trabalho de baixo e bateria, com momentos em que os bumbos duplos trabalham bastante), as linhas melódicas puramente Heavy Metal de “Embrace of Death” (que riffs ganchudos e solos melodiosos bem feitos), a demolidora de pescoços “Traveling by Warriors Land” (uma instrumental excelente, onde se percebe que o grupo é muito bom em termos instrumentais, usando de uma técnica musical bem eclética, onde baixo e bateria mostram bastante como são bons, mas as guitarras são muito afiadas), a longa e climática “Force and Honor” (com um peso absurdo e muitas variações de ritmo, onde o baixo mostra uma fluidez técnica à lá Steve Harris, e a bateria exibe um peso cavalar), a envolvente energia que flui das melodias mais rasgadas de “Thrash Anger” (os vocais estão muito bem, verdade seja dita), as variações de ritmos que permeiam “Fight for Freedom”, e o trabalho intenso das guitarras e dos vocais à lá Lemmy em “Evil Sense” (que possui ótimos solos e até mesmo alguns vocais femininos).

O EVIL SENSE é cheio de pontos positivos, tem muito a evoluir e a oferecer musicalmente. E acertando a mão na produção sonora, e mesclando tantas influências e com a mente aberta que demonstram agora, ninguém segura esses sujeitos!

Ponho fé e acredito neles!