quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Vozes raivosas do Brasil para o mundo - Entrevista com AFFRONT


Por Marcos “Big Daddy” Garcia


Não é novidade para ninguém que das cinzas do grupo de Death/Black Metal UNEARTHLY nasceu o AFFRONT, banda de Thrash/Death Metal que tem causado muita comoção no cenário nacional. E verdade seja dita: o primeiro CD da banda, “Angry Voices”, veio para esmigalhar ossos, causar torcicolos e mostrar que Marcelo Mictian (baixo, vocais), Rafael Rassan (guitarras) e Thiago Caneda (bateria) estão dispostos a alcançar um nível mais acima.

Aproveitando a oportunidade em que a banda está fazendo muitos shows e preparando novas surpresas, fomos bater um papo com Mictian, e aqui está.


BD: Antes de tudo, agradeço a oportunidade da entrevista, e vem a pergunta que você já deve estar de saco cheio de responder: o que houve que levou ao fim do UNEARTHLY (que é o que nos aparenta) e à criação do AFFRONT? E quando surgiu a idéia da banda para vocês?

M. Mictian: O UNEARTHLY está parado, na verdade eu estava sem “saco” para continuar com o UNEARTHLY, e também de trabalhar com algumas pessoas que faziam parte da banda que eu criei 1998. Há algum tempo eu já vinha em minha cabeça moldando o AFFRONT, tendo as ideias e compondo músicas e letras, e chegou o momento que eu coloquei tudo em prática e estou muito feliz com tudo que está acontecendo com a banda.


BD: Logo de cara, uma diferença bem singular: o grupo é um trio com apenas um guitarrista. Algum motivo especial para ser um Power Trio? E como se sente sendo o vocalista principal da banda?

Mictian: Na verdade não seria um trio, mas alguns músicos que convidei no momento crucial desistiram, e também eu não seria o vocalista. O vocalista que faria parte da banda também acabou desistindo, desta forma o R. Rassan disse: “Faz você mesmo, canta você, os seus backing vocais no UNEARTHLY é sempre bem feito então canta”. Eu encarei mais este desafio, no começo foi difícil, mas consegui a me adaptar.


M. Mictian
BD: Você tem uma longa e penosa luta dentro do underground brasileiro. Mas apesar das dificuldades, o AFFRONT basicamente lançou “Angry Voices” em seu primeiro ano de vida. Como foi que em um espaço tão curto de tempo vocês conseguiram compor, ensaiar, gravar e tudo mais? Isso não estaria apontando que já havia material composto para a banda antes de ela ser fundada?

Mictian: Sim, é sempre muito difícil as coisas no underground, mas sempre fui muito perseverante, e também é verdade que quando anunciei o AFFRONT, eu já tinha toda uma base para a banda, porque eu já vinha trabalhando nela a algum tempo em “off”, e  também a entrada R. Rassan foi um gás a mais para que as coisas fluíssem bem mais rápidas a ajuda dele foi fundamental para todo esse processo.


BD: Falando um pouco de “Angry Voices”. É de saltar os olhos o nível de produção, feita por você e Rassan, e a mixagem e masterização de primeira de Daniel Escobar. Já havia algo definido de como o disco soaria desde o início, ou já no estúdio experimentaram sonoridades diferentes? Aliás, parabéns, pois a sonoridade do CD é ótima!

Mictian: Como já falei, eu realmente já vinha trabalhando no AFFRONT há algum tempo, compondo músicas e letras, mas uma coisa fundamental é que o “Angry Voices” é um álbum livre, não fizemos força para produzir, deixamos as coisas fluírem de maneira franca e clara. Em nenhum momento procuramos compor o “o melhor riff” ou nos pressionamos a fazer “o melhor dedilhado na guitarra” simplesmente fizemos Metal, fizemos o que fluía de nossas almas.


BD: Apesar de ser rotulada como uma banda de Thrash/Death Metal, a visão musical do AFFRONT é bem mais variada, mais polida sem perder a agressividade. Existem mais influências musicais no bojo de vocês do que o rótulo nos diz? E como foi o processo de composição de “Angry Voices”?

Mictian: “Angry Voices” é um álbum de Metal franco, sem invenções, é puro e simples Metal. Deixamos fluir tudo que nos permeia, não só Metal, mas outros estilos de músicas que ouvimos e que gostamos, e tudo se fundiu de maneira bem sútil, mas tudo girando em torno do Metal. Como disse, não existe mágica nenhuma. Simplesmente deixamos fluir.


R. Rassan
BD: A arte da capa é soberba, feita por Marcelo Vasco. Quais foram as ideias por trás da arte, e como foi trabalhar com Marcelo?

Mictian: Antes de qualquer coisa, o Marcelo Vasco é um excelente artista e um amigo de longa data, trabalhar com ele é sempre gratificante e fácil para mim. A arte tinha que ser rústica, mórbida, enegrecida, como o Metal tem que ser, mas ao mesmo tempo mostra a igualdade do ser humano, trazendo à tona o lado negro da humanidade, toda sua raiva e também sua hipocrisia, seja ela pelo meio da religião, política ou simplesmente por ser humano.


BD: Esta é especial: apesar do teor ácido das letras, a instrumental “Terra Sem Males” vem para recordar a Guerra Guaranítica, enquanto “Mestre do Barro”, que é inclusive cantada em português, é uma homenagem a Mestre Vitalino, famoso escultor nordestino, que é até mais reconhecido fora de nosso país do que por aqui. Como foi que tais temas vieram para a banda? Aliás, esse é um diferencial do AFFRONT: o uso de alguns temas de fundo cultural.
Mictian: Eu sou filho de uma nordestina e um gaúcho que foi criado no Nordeste. Eu cresci ouvindo a cultura Nordestina (eu gosto disso), nunca neguei a ninguém essa minha cultura que eu sempre fui um grande fã. Um dia, o R. Rassan me mostrou aquela passagem que começa a música no pandeiro, eu adorei aquilo gravamos e guardamos. No fim da produção do CD, eu pedi para ouvir aquela melodia do pandeiro, e em meia hora compomos a música foi tudo muito natural. À noite eu fui para casa, e assistindo TV, eu sem querer achei em um canal passando um documentário sobre o Mestre Vitalino, e parecia que a música que compomos e a história dele teriam sido feitas uma para outra, e naquela noite mesmo eu escrevi a letra. Foi magia mesmo (risos), foi natural.


BD: Outro ponto muito interessante do disco é a participação de Marcelo Pompeu, do KORZUS, em “Under Siege”. Como foi que surgiu essa ideia, e como foi que Pompeu entrou na estória?

Mictian: O KORZUS é uma banda que ouço desde moleque, eu fui a vários shows e hoje em dia, com a internet você consegue “algumas vezes” encontrar e falar com pessoas que você admira. E Pompeu foi super-fácil o contato, e eu conversei com ele, mostrei a ideia. Ele também adorou o convite que eu fiz, e a escolha da música foi feita por ele mesmo. Foi bem interessante, porque ele se envolveu para gravar os vocais, não foi aquela coisa “ah me envia aí que eu gravo”. Não, o Pompeu curtiu de verdade fazer essa participação, e para o AFFRONT foi muito gratificante eu agradeço muito ao Pompeu por isso.


Thiago Canela
BD: Sem mencionar os lyric vídeos, existem dois vídeos para divulgar o CD: “Under Siege” e “Conflicts”. Por que justamente eles dois? E qual a mensagem de cada um dos vídeos?

Mictian: “Under Siege” foi a primeira música que eu compus, e ela foi o ponta pé inicial de tudo com o AFFRONT. E de maneira natural se tornou a música que puxaria a banda. Ela fala é sobre as pessoas miseráveis, pobres e abandonadas pelo Estado essas pessoas vivem sobe cerco da igreja que os exploram vendendo a falsa ideia de salvação, essas mesmas pessoas vivem sob o cerco da polícia e sua violência, pois a única forma de presença do Estado nas comunidades e/ou favelas é através da Secretaria de Segurança. “Conflicts” retrata o vício no poder das autoridades e políticos e sua união também com religiões e forças armadas sabe? Essa união que gera muita sujeira, intolerância e miséria, esses homens lutam e fazem qualquer coisa pelo poder e não importa se terão que roubar, matar  e deixar outras pessoas na miséria total.


BD: “Angry Voices” já tem um ano de lançamento, logo, como tem sido a recepção por parte de imprensa e público? Aliás, já existe a possibilidade de lançamento dele no exterior?

Mictian: Apesar de estar trabalhando neste álbum há algum tempo e antes mesmo de anunciar a banda, eu não tinha noção que teria a repercussão que está tendo. Nós conseguimos alcançar coisas importantes em pouco tempo, e esse reconhecimento com certeza nos deixa muito felizes. “Angry Voices” será lançado na Europa em janeiro por uma gravadora francesa, a PolyMorphe Recs. Estamos ansiosos por isso e vamos ver o que irá acontecer.


BD: Aliás, falando em público, as notícias de shows de vocês têm aparecido bastante, o que é um bom sinal. Mas já há planos para o Nordeste e mesmo para tocarem fora do Brasil?

Mictian: Olha, tocar no Brasil é bem complicado, mas estamos fazendo o máximo para estarmos na estrada, se aparecer algo para fazermos o Nordeste, com certeza faremos ou qualquer outra parte do Brasil. O AFFRONT é uma banda de estrada. Vamos trabalhando e tentar alcançar todos os lugares. A Europa eu acredito que faremos no próximo ano (2018). Estamos trabalhando para que aconteça.
  


BD: Apesar de ser um pouco cedo, já existem ideias para conceitos, letras e música para um segundo disco da banda?

Mictian: Eu sou uma cabeça pensante o tempo todo e vou deixando fluir. Sim, já tenho algumas ideias para um próximo disco, um título que é provisório, mas que pode ser definitivo, enfim todo esse esqueleto para um próximo álbum já está se concretizando e tomando forma.


BD: Bem, é isso, agradecemos pela entrevista e deixamos o espaço para sua mensagem aos leitores.

Mictian: O AFFRONT que agradece aos amantes do Metal como nós, “Tamu Juntu”!

Ouça “Conflicts”, música de “Angry Voices”:


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