Um
dos nomes mais fortes dos últimos cinco anos em termos de Metal tradicional do
Brasil é,
sem sombra de dúvidas, o do quarteto paulista ATTRACTHA. Com apenas um EP e um
álbum, se percebe que a banda evolui constantemente, mas em uma taxa muito
grande.
Aproveitando
o momento em que a banda se encontra colhendo frutos do álbum “No Fear
to Face What’s Buried
Inside You”
(lançado em 2016), fomos bater um papinho com eles e saber um pouco da história
da banda, bem como de seus planos futuros.
BD:
Primeiramente, gostaria de agradecer pela entrevista. Vamos começar com uma
pergunta simples: como foi que o ATTRACTHA surgiu? E de onde vem o nome?
Humberto Zambrin: Marcos, É um prazer!!
O Metal Samsara sempre nos deu espaço e atenção! Agradecemos muito a você por
isso!! A banda começou mesmo em 2012, quando conseguimos juntar pessoas com os
mesmos ideais e objetivos musicais. Eu e o Ricardo Oliveira já tínhamos planos
e músicas feitas há algum tempo, desde 2007, quando nos conhecemos, mas só
formamos a banda em 2012 mesmo.O nome é uma derivação do nome Attracta, uma das possíveis grafias para
o nome de uma Santa irlandesa, contemporânea de Saint Patrick. O nome é uma
homenagem aos seres mais importantes que habitam esse planeta: as mulheres!
BD:
vocês já tinham lançado um EP em 2013, “Engraved”. Olhando em perspectiva, o
que mudou, evoluiu e melhorou entre ele e “No Fear to Face What’s Buried Inside
You”?
HZ: Tudo mudou!
(risos)… bom, dá pra começar explicando que a formação da banda que gravou o
“Engraved” não é a mesma que gravou o “No Fear…”. No novo trabalho temos a
presença do Cleber Krichinak nos vocais e do Guilherme Momesso no baixo. Já
dava pra sentir o que seria o álbum quando lançamos o single “Unmasked Files”
em 2015. Nossas influências se expandiram nesse período, começamos a usar
outras opções de afinação, enfim, tivemos tempo de amadurecer o conteúdo, como
banda, como proposta sonora, saca? Obviamente, as coisas básicas como
entrosamento da banda e a natural evolução musical ajudam muito, também.
Cleber Krichinak
BD:
falando especificamente do álbum: qual a ideia está por trás do título? Óbvio
que ele não foi aleatório, logo, deve ter algo nele. E qual o conteúdo das
letras?
HZ: Ah, o título é auto-explicativo!
(risos)… o conceito lírico do álbum transita pelos cantos mais inexplorados da
mente humana. Algo como aquilo que não gostamos de expor, porém não só coisas
negativas… tudo! É isso que exploro nas letras de cada música, os pontos mais
íntimos dos conceitos e opiniões sobre temas diversos… é como se fosse uma boa
viagem a uma mente aberta. Coloco ali pontos de vista que muitos escondem ou
negam sobre vários assuntos, como doenças, religião, política, personalidade,
caráter, etc… tem um pouco de tudo ali.
BD: O
produtor escolhido para trabalhar com vocês foi Edu Falaschi. Como foi
trabalhar com ele? Até que ponto ele influenciou as músicas de “No Fear to Face
What’s Buried Inside You”? E por que não chamaram o sujeito para uma participação
especial (risos)? Aliás, um elogio: a sonoridade do disco é de primeira!
HZ: Trabalhar com o
Edu é a coisa mais suave do mundo! Obviamente que o trabalho de produtor e
banda não é um comercial de margarina o tempo todo, mas ele é um cara nota 10,
super coração bom e extremamente competente. Profissional de primeira! Quando
sentamos para a pré-produção do álbum, tínhamos metade das músicas compostas e,
obviamente, ali no meio, muita coisa que a gente queria melhorar. Ele mexeu
bastante na primeira música, como se fosse uma aula de produção e depois foi
nos orientando a trabalhar nas outras, permitindo que as músicas ficassem com a
nossa cara, e não a dele. Ele aconselhava, clientela, e em alguns momentos até
compôs umas coisas, mas sempre deixando a banda a frente de tudo. Dá pra ter
uma boa idéia assistindo nosso mini-documentário em 13 episódios, “Facing
What’s Buried Inside You” que está no nosso canal do YouTube!Nós convidamos ele pra participar
sim, mas ele não aceitou! Na verdade, é um lance muito profissional dele, não
participar dos álbuns que produz… Ali ele é produtor, não músico… Ele faz isso
com todas as bandas (risos). E quanto ao som, ficamos felizes em saber que você
gostou!!! Deu trabalho!! (risos)
Ricardo Oliveira
BD:
Algumas bandas, como o ATTRACTHA, têm feito as mixagens e masterizações no
exterior. No caso de vocês, por que fizeram isso, e como se deu a escolha de
quem iria trabalhar nelas?
HZ: Bom, a
indicação veio do próprio Edu. Num dia de trabalho das prés, ele me mostrou
duas músicas do “E.V.O.” do Almah, já mixadas, que ainda não tinham sido lançadas
e eu pirei. Dai eu disse q eu amava a sonoridade do “Unfold” do Almah também, e
ele me disse que era o mesmo cara que tinha feito, o Damien Rainaud. Daí, já
abri o canal de comunicação com ele e fechamos a mix e a master para o “No
Fear…”.Os motivos de
termos escolhido ele são simples: primeiro a sonoridade. Ele havia feito o
álbum que eu tinha o som como inspiração, então já me parecia o caminho mais
curto, e outro ponto é que, para os profissionais dos EUA e da Europa, os
equipamentos tem custo muito mais acessível do que aqui no Brasil, então esses
caras tem acesso a tudo do bom, melhor e moderno a um preço muito mais
competitivo do que temos aqui no Brasil. Importante ressaltar que a qualidade
dos profissionais daqui e de lá é equivalente, não acho que estamos “pra-trás”
em conhecimento, mas em recursos, certamente. Então fomos nessa direção.
BD:
Outro ponto interessante foi o formato da capa, um digipack que abre em vários.
Existe uma motivação para terem escolhido fazer a capa dessa forma? E como que
escolheram a arte do CD? Ah, sim: já que existe certo no ar pelos discos de
vinil, existe alguma proposta para o lançamento de “No Fear to Face What’s
Buried Inside You” nesse formato?
HZ: Ah, a motivação
foi muito simples: como fazer uma pessoa entre 16 e 30 anos de idade comprar um
CD na segunda década do século XXI? Simples: fazendo essa pessoa comprar “mais
do que um CD”, um item de merchandising! A ideia foi essa, oferecer um “algo
mais” para o fã e um atrativo para o não-fã ou para o desconhecedor. CD’s em
caixinhas de acrílico não oferecem nada ao fã, na minha visão. Nesse ponto,
procurei formatos diferentes, inspirado na experiência que tínhamos de comprar
e manipular vinis lá nos anos 70 e 80… dai cheguei nesse formato. O problema é
que nenhuma empresa no Brasil tinha os moldes para se fazer um produto assim,
então tive que desenvolver exatamente tudo! desde o projeto e as dimensões do
digipack, até o protótipo para mandar pra fábrica! Tem um vídeo oculto no nosso
canal do YouTube com um protótipo miniatura desse digipack e eu explicando pros
caras como fazer e como dobrar! Um dia vamos liberar isso!Já a arte, nasceu da inspiração no
conceito e nas letras… ela é muito mais complexa do que se percebe, cheia de
mensagens subliminares e de enigmas que podem ser desvendados pela galera!
Basta sentar lá com a arte e ficar fuçando!O vinil desse álbum é um sonho!! Sendo sincero, tenho já a versão da
arte e etc que podem ser usadas num vinil, mas quando fiz a cotação disso,
desisti. Ainda é extremamente caro.
Guilherme Momesso
BD: O
lançamento de “No Fear to Face What’s Buried Inside You” se deu no Manifesto
Bar, na cidade de vocês. E pelo que soubemos, a recepção foi ótima. Qual a
impressão de você sobre o show e público, justamente em um momento em que vemos
casas fechando as portas por ausência de público? E falem um pouco do show
recente, em que abriram para o Edu Falaschi.
HZ: Olha, esse
lance de casas, público e shows é muito complicado mesmo. Dá uma tese de
Doutorado (risos). No caso do lançamento do álbum, nós trabalhamos muito na
divulgação do show, previamente, principalmente nas redes sociais. Isso é
complicado e dá muito trabalho, porque cada vez que você faz um evento, tem que
mudar a estratégia de divulgação, de como abordar o público e etc, então
tivemos que fazer um bom trabalho de corpo a corpo, gerar expectativa e tudo
mais. E deu certo! Foi um sucesso, do nosso ponto de vista.Já o caso da abertura em SP da
Rebirth of Shadows tour foi um presente! O Edu me ligou e convidou a gente,
porque achava que seria uma excelente oportunidade para nos expor. No fim, acho
que todos nós ficamos surpresos! O show foi sold out, o que dá 1700 pessoas lá
no Carioca Clube. Devemos ter tocado para cerca de 1200 a 1300 pessoas…estava
lotado! Foi nosso auge. Seremos eternamente
gratos por essa oportunidade!
BD:
Em 2016, “No Fear to Face What’s Buried Inside You” recebeu várias indicações
como um dos melhores discos nacionais. Como vocês enxergam isso, como a
sensação de dever cumprido ou como uma motivação para fazer melhor no futuro?
HZ: Eu acredito que
sejam ambos… Como eu já disse, esse álbum nos deu muito trabalho e cada detalhe
foi feito com o maior carinho e dedicação. Nos superamos em diversos momentos.
Receber as indicações e os prêmios cai pra nós como a recompensa maior do nosso
esforço. Fico me perguntando quantas bandas tiveram seu primeiro álbum indicado
e premiado como melhor álbum do ano? Mas passado o primeiro minuto de glória
(risos) fica mesmo é a motivação! Se chegamos aqui com o primeiro álbum, temos
que nos inspirar nisso tudo e certamente nos prepararmos ainda mais para o
próximo! Se vamos conseguir? Vamos fazer nosso
melhor, sempre!
Humberto Zambrin
BD:
Hoje em dia, as mídias sociais são uma ferramenta e tanto para a divulgação de
trabalhos, mas ao mesmo tempo, parece existir certo desdém do público para
bandas mais jovens. Qual a visão de vocês sobre isso? E como quebrar essa
resistência?
HZ: Uau… Outra tese
de Doutorado! (risos). Resumidamente, acho que temos 2 situações que devem ser
analisadas. A primeira é o poder da voz de qualquer indivíduo. A internet e as
redes sociais são o maior exemplo da democratização dos julgamentos e é isso
que a gente vê. Qualquer um pode falar o que for e tem o mesmo peso que um
expert. Nesse sentido, não há só o desdém com bandas novas, mas com as
“veteranas" também. O próprio Iron Maiden, uma das maiores bandas de todos
os tempos, é constantemente julgado e desdenhado nas redes por muitas pessoas.
Ainda lotam estádios porque, assim como outros gigantes, construíram suas
carreiras numa época onde havia uma curadoria, haviam gravadoras e executivos
que decidiam quem aparecia e quem não… Já parou pra imaginar quantas bandas
excelentes acabaram e ninguém conheceu, porque a EMI estava investindo TUDO, no
Iron?A quebra da
resistência, ou como eu gosto de dizer, a exposição para a aceitação, no
presente e no futuro virão exatamente da mesma forma que veio nos anos 70 e 80:
Investimento! As bandas e artistas que se sobressairão, nesse cenário, serão
aquelas que tiverem maior capacidade de captação de recursos e de transformação
disso em base de fãs. Seja investindo em redes e mídias sociais, seja
investindo em shows… No meu ponto de vista, até um artista excepcionalmente
talentoso, mesmo nos dias de hoje, precisará sim de investimentos para se
sobressair. Óbvio que hoje isso não é só dinheiro, pode ser patrocínio, pode
ser exposição conjunta, mas no final, é captação de fãs.
BD:
Essa é para ti, Humberto. Você tem uma série de vídeos com dicas para
bateristas, certo? Como anda a receptividade e o feedback deles? E como tem
sido a coluna no Música Fácil? E o blog que criou sobre o music business e
outros para bateristas iniciantes? E verdade seja dita: são iniciativas que
merecem aplausos em um mundo em que tantos escondem o jogo…
HZ: Ah, obrigado!
Pilotar uma carreira “solo” como baterista, no Metal, no Brasil, é quase
uma missão Hercúlea… mas eu sigo tentando ajudar as pessoas como posso. O
Música Fácil abriu as portas pra mim, me cedendo a coluna onde procuro abordar
um pouco de tudo, de técnicos até cotidiano.Por conta disso, nasceu a ideia do blog, que está mais ligado a dividir
experiências, tentar trazer os jovens para um patamar mais próximo de quem já
viveu diversas experiências profissionais dentro e fora da música. Esse blog
vai migrar para meu canal do YouTube. Infelizmente o interesse pela leitura é
menor que o pelo vídeo… mas de qualquer forma, tenho alguns tópicos que ainda
vou abordar no blog, porque, no final do dia, adoro escrever!
BD: E
como andam as coisas no ATTRACTHA ultimamente? Quais os planos da banda em
termos de música, discos, shows para 2018?
HZ: Queremos ter
uma agenda cheia em 2018, mas é difícil! Estamos negociando participação nos
melhores e maiores festivais de Metal do país, mas é difícil. O Metal movimenta
muito pouco dinheiro e o custo logístico de um show num nível bom, é
extremamente alto. Estamos fazendo nosso melhor. Em 2017 fizemos SP, MG e RJ.
Agora em 2018 já temos confirmado SC e estamos negociando outras oportunidades…
devagar vamos indo.Quero muito colocar a pré-produção de um novo álbum ainda em 2018, mas
tudo depende de agendas… vamos ver! Planos existem!!
BD:
Bem, é isso. Mais uma vez agradeço pela paciência, e pedimos que deixem sua
mensagem aos fãs.
HZ: Nós que
agradecemos, e muito, o seu espaço e atenção! Aos fãs de Metal em geral que
acompanham o Metal Samsara, nosso muito obrigado pelo prestígio, pela força e
pelos elogios! Fazer Metal no Brasil não é nada além de paixão, sejamos banda,
assessorias, sites, blogs ou qualquer outro meio. Portanto, prestigiem o
trabalho de todos que procuram levar novas músicas até vocês!! Um forte abraço
a todos e nos vemos pela estrada!!
Patrice Guers foi
o antigo baixista da banda de metal sinfônica italiana RHAPSODY OF FIRE. Ele se juntou à banda depois que Alessandro Lotta deixou a banda e tocou
com eles até 2011, quando ele saiu da banda com o guitarrista Luca Turilli para formar o LUCA TURILLI’S RHAPSODY. Depois de uma
turnê Ásia no mês passado, Rhapsody
retornará ao Brasil no dia 7 de janeiro em São Paulo, no Tom Brasil. Na
sequência, a banda segue para 6 países da América Latina e depois segue para a
Europa. Confira a entrevista
com o baixista da banda!
Você tocou com o RHAPSODY
OF FIRE de 2002 a 2011. Por que resolveu deixar a banda naquela época?
Patrice Guers:
Após o fim da saga no RHAPSODY OF FIRE,
Lucna decidiu começar uma nova
banda, a LUCA TURILLI’S RHAPSODY, e
me pediu se eu queria estar nela com ele. É claro que foi uma honra seguir a aventura
com tamanho compositor, adoro o universo musical dele. Foi algo realmente natural.
Após tantos anos compondo com a mesma banda, eu consigo compreender totalmente
a necessidade de Lucca de novas
aventuras musicais com liberdade plena. Da mesma forma, também é muito bom
voltar às raízes com a RHAPSODY REUNION
após alguns anos.
Com tantos shows e turnês longas, como você concilia tudo
isso com as aulas de baixo?
Patrice: Estou
livre das clínicas de baixo e aulas. Posso planejá-las quando estou disponível,
e também dou aulas de baixo pelo Skype. Logo, não existem problemas de estar em
turnê. Fazer turnês e tocar em shows é minha atividade principal nos últimos 25
anos, amo fazer isso.
Em sua opinião, o que difere o público latino americano daqueles
de outros continentes?
Patrice: o
públicolatino americano é
fantástico! E não é um cumprimento, mas verdade! Quando estamos aqui, eles nos
seguem do aeroporto até o show, J. Adoro a atmosfera latina, o bom clima, as pessoas
rindo, dançando, ouvindo música... Descobrir a cultura latino americana, andar
pelas ruas, visitar lugares e encontrar as pessoas é algo necessário para mim.
Não é só vir aqui, tocar e depois voltar para casa.
Quais são os planos após a turnê europeia?
Patrice: Com o RHAPSODY, absolutamente nenhum, J
O que pode nos dizer sobre Fabio Lione enquanto vocalista da banda brasileira ANGRA?
Patrice: Fabio é
um cantor fantástico, não importa em qual banda. Como artista, ele está certo
em fazer aquilo que quiser e gostar. O ANGRA
é uma grande banda e com ótimos músicos. O que posso ver após estes anos
tocando com bandas diferentes é que Fabio
está melhor que nunca. Estou fazendo a mesma coisa como baixista, tocando com
bandas diferentes com estilos que vão do Blues ao Funk. É muito interessante juntar
todas essas influências em cada nota que toco. Cada nova experiência musical é
importante para um músico que sempre que ser melhor. Não existe fim na evolução
como músico.
A 20th Anniversary Farewell Tour foi anunciada em novembro
de 2016, trazendo os ex-membros do RHAPSODY.
Quais são os planos da banda para o final da turnê, e consequentemente, quais
os futuros planos da banda e seus?
Patrice: Nada está
planejado para o RHAPSODY após a
turnê europeia em março. Então, eu irei excursionar com outras bandas como
tenho feito por muitos anos. Ainda estou estudando música, viajando pelo mundo
para aprender sobre ritmos africanos, batidas cubanas, etc... Como músico, é
importante para mim tocar coisas diferentes e aprender onde quer que seja. Isso
não significa tocar linhas de baixo de Salsa em música Heavy Metal, é apenas
como se sente tocando bateria para criar o melhor groove possível, e dar o
melhor para a música. É fantástico ver a relação entre todos os estilos
musicais, do Blues ao Rock ‘n’ Roll e ao Heavy Metal... Algumas vezes, você
sente que é tudo o mesmo, com uma mudança no som das guitarras, por exemplo, J.
Quais são suas expectativas em relação ao show de São Paulo?
Patrice: Apenas
um show no Brasil nessa turnê, então esperamos muita loucura nele. Brasileiros,
venham e fiquem loucos conosco nesta última oportunidade de ver um show do RHAPSODY. Vamos lhes dar nosso melhor!
O Brasil é um centro de formação de ótimas bandas de Metal,
em todas as vertentes do estilo. Mas ainda estamos engatinhando no que tange
falar de nossa cultura, e muitas vezes, o brasileiro parece sentir vergonha de
suas raízes. Mas existem aqueles que resistem, que sentem orgulho das raízes
pagãs dessa terra manchada de sangue e ganância do colonizador, e que promovem
um levante nativo. Entre eles, o pioneiro MIASTHENIA,
que desde 1994 vem lutando no underground, e que agora, lança “Antípodas”, seu mais recente álbum,
onde a temática central é a saga de Francisco
de Orellana contada sob a perspectiva das guerreiras Icamiabas.
Aproveitando o lançamento do disco, tivemos a oportunidade
de entrevistar Hécate,
tecladista/vocalista do grupo, e mergulhar mais fundo no contexto
lírico/musical de “Antípodas”.
BD: Salve, Hécate. Antes de tudo, gostaria de
agradecer pela oportunidade de entrevistar você. Logo de início: como e quando
teve contato com a saga de Francisco de
Orellana, e como surgiu a ideia de abordar esse tema? Aliás, a clara
impressão que tive é de que esse tema permeia todas as letras, criando um disco
conceitual, estou certo?
Hécate: Eu
agradeço pela sua entrevista e apoio ao MIASTHENIA.
Sou Professora e Doutora em História e estudei as crônicas escritas pelos
conquistadores/colonizadores sobre os ameríndios nos séculos XVI e XVII, então tive
contato com essa obra quando já quando realizava o Mestrado (1999-2002), especialmente
através dos estudos de minha ex-orientadora sobre a imagem das guerreiras amazonas
na história. No álbum “Batalha Ritual”
(2004) já tinha uma música (“Zôster”)
sobre as amazonas, então eu já vinha também me preparando e lendo sobre isso.
Mas como você bem observou, essa história de Orellana e das amazonas inspirou todo o álbum.
BD: Tanto no
encarte do CD como em uma declaração em uma nota de imprensa, o significado da palavra
“Antípodas” é explicado por vocês. Mas como cito acima, a luta das Icamiabas contra Orellana é um tema recorrente nas letras. Existe alguma ligação
entre esses dois temas que poderia nos explicar?
Hécate: Sim, tudo
está conectado, porque Antípodas se trata da forma como os seres (vistos como amazonas/icamiabas, canibais, cinocéfalos
e iwaipanomas) confrontados na
América representam o que há mais selvagem, pecaminoso, abominável e demoníaco
no imaginário cristão dos conquistadores dos séculos XV e XVII. Todos esses
seres foram representados iconograficamente nos antigos mapas onde a América
figurava como território selvagem e inóspito, como uma Antípoda (oposição) do
mundo cristão e civilizado. O álbum é uma crítica a essa visão cristã, de forma
poética busca desvelar a vontade de poder e dominação daquilo que era diferente
e inconcebível a uma sociedade colonial cristã que se tentava implantar na
América.
BD: Aliás, vamos
direto e reto ao assunto: muitos fãs não fazem a mínima idéia de quem elas são,
logo, que tal uma explicação sobre elas?
Hécate: As
amazonas são mulheres guerreiras que aparecem em várias relatos desde a Grécia
Antiga. Com a conquista da América, os europeus se depararam com inúmeras
sociedades onde as mulheres poderiam atuar como guerreiras e lideranças
tribais, e isso no imaginário dos conquistadores só poderia encontrar algum
sentido e explicação nas suas antigas tradições de mulheres míticas e
abomináveis que escapavam dos padrões de feminilidade frágil, submissa e que
seriam inimigas dos homens e da moral. Logo associaram tais mulheres a essas
que já povoavam o imaginário cristão/europeu há séculos. O problema é que nessa
associação as mulheres indígenas foram convertidas em bruxas, feiticeiras e
seres ainda mais pecaminosos, por se conectarem com um tipo de sociedade
matriarcal que devia subverter a norma cristã, ou seja, constituindo-se em um
pesadelo e ameaça. Não por acaso, a violência colonial/patriarcal usou de tais
imagens para dominar e evangelizar os indígenas. As icamiabas seriam mulheres guerreiras que viviam sem a presença de
homens em sua comunidade na região do rio Amazonas em 1542 (época da expedição
de Orellana pelo grande rio), que,
aliás, recebe esse nome por conta de uma série de relatos dos próprios
indígenas que deviam tributos ou eram aliadas dessas mulheres. Orellana associou essas mulheres às
antigas amazonas de relatos míticos gregos. Assim, na América os antigos mitos
encontravam realidade e acabaram por servir aos interesses colonialistas de
dominação, demonização e mitificação de qualquer tipo de sociedade onde as mulheres
pudessem ser independentes e guerreiras. Desde então, negou-se a presença de
mulheres guerreiras na história, já que associadas ao universo mítico, como
seres inconcebíveis. Enfim, essa é a ótica cristã e patriarcal, mas outras
histórias existem nas tradições ameríndias e são essas que nos inspiram.
BD: Ao mesmo
tempo, é interessante notar o uso da visão dessa parte da história por uma nova
perspectiva, diferente da usada pelo padre Gaspar
de Carvajal. Como essa ideia de mudar a visão do colonizador para as
guerreiras surgiu?
Hécate: Basta
mudar de perspectiva histórica e considerar as sociedades indígenas como
sujeitos legítimos de produção de conhecimento histórico também, pois a
história ensinada em nossas escolas é a história do ponto de vista cristã,
colonial e europeu que tende a apagar qualquer diversidade e especialmente o
poder e liberdade das mulheres. Por longo tempo eu estudei o imaginário
cristão/colonial sobre a América e vi suas relações com o poder, por isso venho
me dedicando também ao estudo das concepções dos próprios indígenas, porque
elas nos trazem outras perspectivas históricas, ou seja, “histórias do
possível” daquilo que foi apagado e tido como mítico/impossível nas narrativas
históricas cristãs. Nós precisamos libertar o nosso passado, para libertar
também nossas identidades no presente!
Hécate (foto: Patty Freitas)
BD: Sobre os
aspectos técnicos de “Antípodas”,
percebe-se que o trabalho de Caio
Cortonesi em termos de produção, mixagem e masterização deu uma evoluída em
relação ao que ouvimos em “Legados do Inframundo”.
Ou seja, a sonoridade da banda está crua como o estilo que fazem, mas limpa e
bem definida para as melodias e arranjos da banda fiquem evidentes. Como foi
trabalhar com Caio mais uma vez? E
até onde ele interferiu em algum aspecto junto a vocês?
Hécate: É sempre
uma grande honra e satisfação trabalhar com o Caio, porque ele respeita e entende muito bem nossa proposta
temática e musical. Além disso, ele vem evoluindo cada vez mais enquanto
técnico de áudio e isso se reflete em nossos álbuns. Em vários momentos ele
também participou (nas vozes, escolha de efeitos e timbres) e acrescentou algumas
ideias ao álbum, mas sempre com enorme sintonia conosco, assim confiamos
bastante em seu trabalho e somos muito gratos a ele por todo esse trabalho e
dedicação ao MIASTHENIA.
BD: Além disso,
seguindo uma tendência que “Legados do Inframundo”
já mostrava, “Antípodas” tem canções
mais curtas e é o disco de vocês com menor duração. Isso é algo intencional, veio
do amadurecimento da banda ou teria outra origem que não sabemos?
Hécate: É
intencional, porque com o tempo vamos mesmo amadurecendo e avaliando o que já
fizemos. A intenção não era quantidade, mas sim qualidade.
BD: Fugindo um
pouquinho da atualidade, “XVI” e “Batalha Ritual” foram relançados em um
duplo CD este ano. Qual é a sensação de verem os dois discos do MIASTHENIA relançados? Isso mostra o
interesse dos fãs mais jovens na banda, concordam?
Hécate: Sim, com
certeza. A sensação foi de orgulho, porque é parte da nossa história, e ver
isso concretizado nesse relançamento é muito importante para nossa existência,
nos fortalece.
BD: Ainda pegando
o gancho do CD duplo, existe a possibilidade de “Antípodas” ter lançamento em outros países?
Hécate: Acho que
sim, o “Legados do Inframundo” foi
relançado na França pela Drakkar com as letras traduzidas para o inglês no
encarte. Mas, por enquanto estamos satisfeitos com a repercussão da edição
nacional do “Antípodas”, quem sabe
aparece uma oportunidade também de relançamento fora do Brasil.
BD: Voltando à
temática de “Antípodas”, se sente a
força do lado feminino surgindo naturalmente, não só pela temática centrada nas
Icamiabas. Como esta característica
foi se delineando, surgindo e amadurecendo no disco?
Hécate: Realmente
essa temática surge de um desejo de trazer à tona o que tanto me motiva
enquanto mulher em uma banda de metal a escrever letras de resistência indígena
ao cristianismo. Reflete minhas perspectivas feministas, pagãs e anti-coloniais
no campo da História, da política e das relações de gênero. É fruto de uma
série de leituras históricas em busca de exemplos de mulheres indígenas na
América pré-colombiana e colonial que escapavam dos padrões prescritos para as
mulheres pela cristandade. A princípio pensei em fazer uma letra para cada uma
destas personagens, e dai fui juntando textos e fontes, mas com o tempo fui me
aprofundando também nos estudos decoloniais/pós-coloniais e me surgiram muitas
reflexões e inspirações na abordagem desse tema, então o álbum não ficou
exclusivamente restrito às amazonas, porque outros personagens também aparecem,
endossando um contexto muito maior de negação da diferença confrontada na
América.
BD: Uma pergunta
um pouco triste e chata, mas que precisa ser posta na mesa: Hécate, é de conhecimento de muitos que
você é Ph.D. em História, e mesmo com o resgate da cultura pagã Pré-Colombiana
que está cada vez mais intenso no Brasil, vemos momentos lamentáveis na
atualidade: censura à exposições de artes, a queima de bonecos da Filósofa Judith Butler por setores
ultraconservadores (e pasme: aos gritos de “queimem a Filósofa”), a luta contra
os direitos individuais das mulheres, da comunidade LGBTQ, dos indígenas e
outras, etnias, ou seja, o recrudescimento que beira o TFP dos anos de chumbo
da Ditadura Militar de 1964. O mais triste: ver muitos fãs de Metal se
alinhando com esses valores. Qual a sua opinião, como música, professora,
enfim, como pessoa culta diante de tanta sandice, de tanta intolerância?
Hécate: Eu me
revolto também com tudo isso, porque reflete muita incoerência na cena Metal. Judith Butler para mim é uma grande
referência na Filosofia, porque me baseio nas suas discussões sobre corpo e
gênero em minhas pesquisas acadêmicas, o seu pensamento é subversivo e
desconstrutivo e isso sim é o que me inspira a romper com tanto dogmatismo,
fanatismo e ignorância em torno de ideias e concepções que tentam dominar o
nosso ser e nossas relações sociais. O Metal deve libertar as pessoas, surgiu
como forma de rebeldia e não deve ser usado como forma de opressão. Foi isso o
que me atraiu para o Metal, mas hoje temos que lutar para manter essa
significação. O MIASTHENIA sempre
teve uma postura abertamente antinazista dentro do cenário Black Metal e isso,
anos atrás, nos envolveu em muitas brigas e confusões, mas resistimos.
Infelizmente o cenário do Metal está cada vez mais cheio de pessoas com ideias
extremamente fundamentalistas e conservadoras: sexistas, homofóbicas e
racistas. Boa parte destas pessoas não tem consciência do quanto seus valores
em relação a essas questões se alinham com interesses de grupos, instituições e
políticos cristãos que no fundo odeiam todos nós, só visam o poder e detestam a
essência do Metal. Adoro a expressão “o Diabo é o pai do rock!”, então que
fiquem longe dele aqueles que o temem!
Nygron (Foto: Ivanei)
BD: Vocês liberaram dois vídeos: um lyric vídeo para “Antípodas”, e um vídeo oficial para “Coniupuyaras”. Como estas canções
foram escolhidas, e principalmente, como foi a produção e gravação de “Coniupuyaras”? E me permitam o elogio:
o resultado final é fantástico!
Hécate: Obrigada.
A escolha não foi aleatória, tudo foi pensado em termos de som e imagem e que
era possível de se fazer, porque algumas músicas são mais cinematográficas que
outras. A música “Coniupuyaras” teve
sua letra pensada já em sintonia com as imagens. Foram meses idealizando o
local, figurino e roteiro desse clipe, e ficamos muito satisfeitos com o
resultado, o Caio fez excelente
trabalho de roteiro, direção e edição, novamente ele captou muito bem nossa
proposta. Gravamos o clipe aqui mesmo em Brasília, dentro de uma área de
proteção ambiente há menos de dois km de nossa casa, em lugar fantástico para
nossa proposta. Já o lyric vídeo de “Antípodas”
foi escolhido e pensado também em termos de sua relação com imagens, a letra
era perfeita para inclusão de antigos mapas e iconografias dos séculos XV e
XVII que traduzem o imaginário cristão colonial sobre a América enquanto
território selvagem, povoado por amazonas, canibais, cinocéfalos e iwaipanomas,
dentro outros seres estranhos e aterradores.
BD: Voltando ao MIASTHENIA,
e sobre shows? O show de 08/12 promete, mas existem possibilidades para outros
estados, e mesmo fora do Brasil?
Hécate: Sim, não
somos uma banda de longas turnês e muitos shows, porque temos nossas carreiras profissionais
paralelas à banda. Mas na medida do possível, estamos planejando uma turnê e em
breve teremos novidades para 2018.
BD: Bem, é isso. Agradeço demais pela entrevista, desejo
todo sucesso do mundo à banda, e, por favor, deixe sua mensagem para o público.
Hécate: Eu
agradeço pelo interesse e oportunidade de expor aqui um pouquinho de minhas
concepções. Vida longa ao Metal Samsara! Para aqueles que ainda não conhecem
nossa música, convido a navegar nos links logo abaixo. Em breve teremos
disponível pela Mutilation a versão de “Antípodas”
em LP (vinil). Força e honra sempre!
Se você conhece bem o cenário do Metal extremo nacional, o
nome do MORCROF não lhe soará
estranho. Um dos pioneiros da SWOBM (Second Wave of Black Metal) no Brasil,
desde 1992 estão nessa luta. E apesar de tantos anos, com várias Demos, EPs,
Singles, discos ao vivo e outros, o grupo possui apenas um álbum, “Machshevet Habriá (Myths and Conjectures
of Creation)”. Mas em breve, o novo álbum estará disponível.
Aproveitando que a banda vive um bom momento após o
lançamento do ao vivo “Live At the
Brazilian Swamp” e se prepara para lançar mais um álbum, lá fomos nós ter
uma conversa e saber sobre passado, presente e futuro deles, bem como conhecer um
pouco mais dos planos para o ano que vem.
BD: Saudações.
Antes de tudo, gostaria de agradecer pela oportunidade de entrevista-los. Como
primeiro ponto, que tal nos contar um pouco da história da banda, desde 1992
até hoje?
Paullus: Big Daddy,
nós que agradecemos pela oportunidade que nos oferece para falar um pouco sobre
a MORCROF!
A banda já era um projeto em mente de Caecus Magice, nosso primeiro guitarrista, que tentava na época
recrutar membros que pudessem fechar uma formação. Casualmente nos encontramos
e ele me chamou para formatarmos a banda, a princípio, tendo como referência
sonora as principais bandas de Death e Grind vigentes da época. Sentamos a
primeira vez para compor em dezembro daquele mesmo ano, ponto de partida em que
considero o início das atividades. Em 1993 fechamos o ano com a formação
completa, 10 sons compostos que foram divulgados na reh 1994 “A Future Not So Far” e shows
realizados. Logo após o lançamento da reh, Caecus
Magice e Feralis saíram para
formar a Eris Mestus, e seguimos com
Beah Gênes Hajj-Ahriman e R’Matheus (com passagem meteórica)
substituído por Pétros Nilo em 1995.
Em 1996 lançamos a DT “Scientia Ab
Mortuus” e fizemos alguns shows para promovê-la. Até 1998, compomos mais
algumas músicas que foram gravadas na DT 1999, “Peragere Humum Et Semem Terrai Abditae” e na DT 2001 “Alesh”, estas registradas já com
outras formações. Essas Demos tiveram boa repercussão e nos abriu caminho para lançarmos
a compilação 2002 “Apeiron (Trinitas
Primitiae Opus)” e o full length “Machshevet
Habriá (Myths And Conjectures Of Creation)” em 2005. Fizemos bastantes
shows no período em que culminou na abertura do Rotting Christ em sua segunda passagem pelo Brasil em 2006 e que
resultou no DVD “Animo Signus Aeterno”.
Os anos seguintes foram de altos e baixos: falta de grana, de estrutura,
obrigações pessoais e o velho problema na formação nos acompanhou até 2011,
quando fechamos um novo lineup que nos impulsionou a composições de novos sons
que sairão no próximo álbum. Uma prévia disso pode ser conferido no Single 2015
“codex.gnosis.apokryphu.:.portae.es.solis.sursum.aquilonem”
e no álbum “Live At The Brazilian Swamp”,
gravado no memorável show de abertura do Varathron
em 2015. Hoje, estamos estabilizados com
Eziel Kantele-Väinö, o insano; Bruno Brahms Kermanns; R’Bressan; Cleber Borges; Paullus Moura
e R’Herton.
BD: Nesses 25
anos de vida do MORCROF, vemos que a
discografia da banda é bem grande, com vários EPs, Demos, Singles e outros, mas
apenas um álbum, “Machshevet Habriá
(Myths and Conjectures of Creation)”. Por que só um Full? Aliás, dava para
vocês fazerem mais uma compilação, pois material não falta.
Paullus: Depois
de 2006, voltamos a ter problemas na formação e um acúmulo de problemas na
esfera pessoal... Caminhamos muito pouco desde então! Não tivemos tempo para
sentarmos e compormos de modo mais incisivo e desanimamos um pouco com a
dificuldade em encontrarmos novos integrantes. A coisa começou a mudar a partir
de 2011 com a entrada de R’Herton na
bateria e de Agnaldo Dead Poet nos
vocais, só a partir de então, com ensaios regulares, pudemos colocar as novas
composições em dia, iniciarmos novas gravações e retornarmos aos palcos. Sobre
fazermos uma compilação com alguns outros materiais, nós nunca pensamos nessa
possibilidade. (Nota do entrevistador: selos que lerem esta entrevista, hora de
apostar na banda!)
BD: Mesmo sendo de 12 anos atrás, “Machshevet Habriá (Myths and Conjectures of Creation)” deu a
vocês a projeção que pretendiam? Ele chegou a abrir portas?
Paullus: Acho que
sim. Esse álbum reverberou bem no Brasil e no exterior e ainda hoje muitos headbangers
nos contatam à procura de “Machshevet
Habriá...”! As portas se abriram, mas não tivemos condições, eficiência ou
competência para aproveitarmos aquele bom momento...
BD: Mais uma
sobre o passado: olhando pela internet, percebe-se que a formação da banda
sempre sofre alterações. A que atribuem esse fato? Às dificuldades de se fazer
Metal no Brasil, um pouco de responsabilidade dos ex-membros, uma combinação de
ambos ou outros fatores?
Paullus: Foi uma
combinação de diversos fatores com certeza; de tudo que você possa imaginar... Imaturidade,
inexperiência, desinteresse e saída de membros, mulher, filhos, trampo, estudo,
grana, enfim... Por incrível que pareça, as “dificuldades de fazer Metal no
Brasil” nem cogitamos pois é uma realidade intrínseca.
BD: Recentemente,
vocês lançaram o ao vivo “Live At the
Brazilian Swamp”, que foi gravado no show de abertura do Varathron em SP. Qual a sensação de
tocar com uma banda que, de certa forma, é uma influência para o MORCROF? E qual a intenção de lançar o
ao vivo?
Paullus: A
sensação? Foi como trepar com uma gostosa e gozar litros nela várias vezes sem
tirar de dentro! Sobre o live, a intenção é mostrar que, uma coisa é se gravar
músicas em estúdio com milhões de recursos técnicos que hoje temos em mãos,
tudo sai lindo, nítido, perfeito, como a banda quer que soe; e outra coisa é
executar os mesmos sons ao vivo organicamente, com improvisos, adrenalina,
público urrando, crueza... são versões oferecidas de uma mesma música, a cada
vez que tocamos ao vivo torna-se inédito pois tudo pode acontecer. Penso que
registros “lives” não serve para comparar com trabalhos de estúdio – com o Single
por exemplo, mas imergir na essência que a banda mostra on stage...
BD: Ainda sobre “Live
At the Brazilian Swamp”, como tem sido a recepção dele por parte do público e
da crítica especializada em Metal?
Paullus: Por
incrível que pareça, quem escutou “Live
At the Brazilian Swamp” entendeu a proposta... Claro, vamos lá: são áudios
masterizados tirado de uma filmadora frontal ao palco e que captou tudo quanto
foi ruído em sua volta, longe da perfeição... Mas tem a essência daquela noite
e é isso que queríamos passar! Encaramos bem qualquer crítica, tomando cuidado
tanto com as negativas quanto com as positivas...
BD: O último
Single da banda, “Codex Gnosis Apokryphv:
Porta Ex Solis Svrsvm Aqvilonem”, precedeu o ao vivo em dois anos. Mas em
termos de projeção, podemos dizer que ele atingiu o objetivo, ou seja, mostrar
não só que o MORCROF está vivo, mas
chegar até novos fãs?
Paullus: O Single
está cumprindo com esse objetivo, causando boa impressão e surpresa aos velhos
irmãos que nos acompanham desde o início, sobretudo pela inserção dos vocais
limpos, quanto sendo bem aderido também aqueles que ainda não conheciam a
banda. E, como bem mencionado na pergunta e parafraseando Steve McQueen em “Papillon”,
precisávamos lançar algo que dissesse: “Hey, ainda estamos vivos, desgraçados!”
BD: Hora de falar
do futuro: a banda parece estar preparando mais um álbum para breve, certo? Se
sim, o que poderiam nos adiantar em termos de informação (nome, tracklist,
etc)? E há uma previsão para o lançamento dele?
Paullus: Sim,
estamos na reta final da produção do novo álbum, que trará o título “.:.codex.gnosis.apokryphu.:.arcano.verba.revelatio.:.”
e apresentarão, dito em primeira mão, as faixas: “invocatio spiritus antiquis”; “in monolitus ex auorum spiritus
mundus”; “preconceptual genesis circularis elementarum existentiam”; “preludium.:. apretit portae”; “portae ex
solis sursum aquilonem”; “existentia imperfecta es”; “ad infernum exilio meam”;
“gratiam aeon sapientia mundi”. O álbum trará algo que sempre quisemos
fazer: cantar em latim na íntegra. Embora estejamos próximo da conclusão dos
áudios, infelizmente ainda não temos a previsão exata do lançamento...
BD: Aliás, em
termos líricos, algo mudou dos tempos da Demo “A Future Not So Far” até hoje? E quais são os temas centrais das
letras? Alguma mensagem aos fãs?
Paullus: Houve um
evidente amadurecimento de ideias, mas o cerne continua sendo o mesmo: o
existencialismo humano. Questionamento sobre vida, morte, existência, sempre
fez parte de nossas conversas e as letras justificaram esses pensamentos seja
em “its explanation is your god” de
1993 ou em “existentia imperfecta es”
escrita em 2008.
BD: Vocês são de
uma geração que viu surgir no Brasil nomes como MIASTHENIA, SONGE D’ENFER, OCULTAN, MALKUTH, entre tantos outros
nomes que são pináculos do Black Metal brasileiro. Olhando hoje para o passado,
existe aquela impressão de que poderiam ter feito algo diferente do que fizeram?
Existem arrependimentos?
Paullus: Não existem
arrependimentos... Mesmo! Fizemos o melhor que achávamos dentro do contexto que
vivíamos a cada época. Seria fácil hoje com mais de 40 anos olhar para traz e
pensar que poderíamos ter feito algo diferente quando na verdade não,
justamente porque não possuíamos a vivência e experiência que temos hoje.
BD: O Metal
nacional vive um momento de cisão: de um lado, vemos a censura de exposições de
arte, pessoas queimando bonecos de filósofos aos gritos de “queimem a bruxa”, e
muitos bangers se alinhavam com esse cenário ultraconservador, inclusive dando
suporte ideológico a deputados da dita bancada evangélica. Como vocês enxergam
essas situações? Não dá um pouco de nostalgia em relação à época em que
mandávamos políticos se foderem e éramos apegados uns aos outros
fraternalmente?
Paullus: Vou
tentar ser muito claro nesta questão, não somente porque ela traz polêmicas,
mas também porque dentro da banda temos visões distintas sobre ideologias
políticas que ora nos aproxima, ora nos distancia entre argumentos e
justificativas. Então, o que vou expor aqui é algo meramente pessoal e não uma
posição da banda como ferramenta artística e pontual.
Antes de tudo, admiro pessoas que procuram se posicionar,
errado ou certo sob determinada perspectiva, o importante é se posicionar; em
segundo, as pessoas devem ter o peito aberto para debater as diferenças não
como um objeto concretado, mas de possibilidades, no exercício de empatia,
sabendo ouvir e entender, sabendo falar e ser compreendido. Ainda não chegamos
nesse nível. O brasileiro, antes alheio as questões ideológicas política em sua
maioria, e aqui me refiro aos anos 80 e 90, hoje conversam sobre decisões do
STF ou das leis que estão sendo encaminhadas no Congresso e no Senado... ou no
seu Estado ou município. Esta é a impressão positiva que tenho, mas que se
desdobra em equívocos, pois não está muito claro a muitos de nós as conexões ou
relações que transitam de um extremo ao outro.
Precisamos pesar as consequências daquilo que anunciamos
como “sociedade perfeita” sem que isso seja um tiro no pé, sem que nivelemos as
situações por baixo e de modo superficial... Isso é nada fácil! Devemos
enfrentar a situação com a política que fazemos no dia a dia e, portanto, tomar
conhecimento do homem como ser social. Precisamos limpar essa água turva que
impede enxergarmos com clareza alguns conceitos... Sei lá, vou usar uma
afirmação turvada recente: “nazismo é de esquerda”... Estão confundindo regimes
totalitários com o germe dessas ideologias... Misturando conservadores e
progressistas com moderados numa discussão convergente entre extrema-esquerda e
extrema direita... Nesse sentido, tá tudo uma bosta porque o posicionamento
político citado no início desta resposta passa a ser um engodo à própria pessoa
que profere suas ideias, a análise é rasa e, influenciados pelos extremos
ideológicos, acabam por se satisfazer com uma retórica banal de qualquer
político e, pior ainda, o adotam como se fosse seu animal de estimação...
Outro dia li uma matéria que trazia na manchete: “Metal
sempre foi conservador”... Claro, pra mim uma boa provocação... Metal nunca foi
conservador, tá na sua genética, o que acontece são jovens “libertários” dos
anos 80 se vendo hoje entregues ao sistema, não estou condenando, só
constatando. Hoje em dia o Metal está se ratificando como uma arte meramente
estética e corrompida pela indústria cultural, aceitável, maleável com tudo
aquilo de que foi adepto na origem: Sublevado, rebelde, transgressor,
libertário, contestador, repulsivo. O “headbanger” que lutava por liberdade
outrora passou a almejar o status em que alcançou e, dentro desta perspectiva,
ele tem suas razões. Bom... é um tema muito amplo... difícil pontuar tudo que
leva ao que estamos vivendo no momento. O que sei é de minha posição:
Libertário e progressista. Libertário porque nenhum homem ou instituição tem
valor moral para subjugar e explorar outro homem (mas fazemos porque somos
hipocrisias!)... E progressista porque precisamos abrir a mente para entender
as novas demandas de valores que a sociedade necessita.
BD: E em termos
de shows, como as coisas estão? Existem propostas para alguns shows fora de SP,
e mesmo para os outros países da América do Sul?
Paullus: Com a
entrada do Bruno e do Cleber, tivemos que ganhar um fôlego
para que a atual formação ensaiasse os sons que serão apresentados ao vivo.
Fizemos um show “piloto” em 15 de outubro que nos serviu experiência... E temos
mais 2 festivais este ano. Para 2018, ainda vamos nos reunir para organizar
como serão os ensaios, suas proposições, shows, composição... Novamente, com 6
integrantes, tentaremos equacionar os dias e horários que seja bom para todos
e, feito isso, elaborar a agenda. Não há nenhuma proposta até o momento para
show no ano que vem...
BD: É isso. Mais
uma vez, agradeço demais pela entrevista, e por favor, deixem sua mensagem aos
seus fãs e leitores do Metal Samsara.
Paullus: Nós que
agradecemos, mais uma vez, por todo seu suporte, dedicação e atitude por manter
um importante veículo de informação underground como o Metal Samsara. Nossos eternos agradecimentos a você e a todos que
se interessaram em ler esta entrevista e conhecer um pouco mais sobre a MORCROF.
Sempre quando se fala no Metal da região Nordeste do Brasil,
a primeira ideia que nos vem à mente é justamente a fertilidade de lá em termos
de bandas. Muitos nomes que vêm de lá mostram trabalhos excelentes, e da cidade
de “Hellcife”, em Pernambuco, estado que já deu ao mundo bandas como HATE EMBRACE, STONEX, CANGAÇO, MALKUTH,
entre tantos outros, vem o quinteto ELIZABETHAN
WALPURGA.
Fundindo Metal tradicional, Black Metal com uma pitada de
Classic Rock, o grupo fez de “Walpurgisnacht”
uma aula de inovação dentro do Metal nacional.
E lá fomos nós aproveitar o bom momento para falar com a
banda, na figura de seu baixista Renato
Matos, e saber do passado, das novidades atuais e planos futuros do
quinteto.
BD: Saudações!
Antes de tudo, agradeço pela oportunidade, e queria começar a entrevista
pedindo que nos conte um pouco da história da banda. E principalmente, de onde
veio a ideia de usarem o nome ELIZABETHAN
WALPURGA?
Renato Matos: Saudações
para todos que acompanham o Metal
Samsara e obrigado a você, Marcão “Big
Daddy” Garcia, pela oportunidade e espaço para nossa banda.
A banda foi formada por mim, Breno e Erick Lira em
1994 com a proposta inicial de fazer um death metal melódico. Somos amigos de
infância e nos conhecemos em 1982.
Em 1994 eu já era baixista da banda Infected, que na época estava fazendo um Death Metal brutal na
linha do Morbid Angel. Quando fiz as
bases, do que depois veio a ser a música “Vampyre”,
tive certeza de que tinha de ser compositor e ao mesmo tempo de que o que eu
queria compor não se encaixava no Infected
e em nenhuma outra banda que eu já tinha ouvido naquela época, então mostrei
aos irmãos Lira as bases que tinha
feito. Eles gostaram muito do que eu mostrei, e assim começamos a banda. No
início, eu ia passar a noite e fins de semana na casa deles, foi onde tudo
começou, eles nessa época já tinham se mudado de nossa vizinhança e lá íamos
nós na base de um litro de Rum para 1.250 ml de Coca-Cola e duas caçambas de
gelo! Erick tomava apenas a primeira
dose conosco, eu ia até a metade da garrafa com Breno, acabava a coca e a outra metade amanhecia seca, rsrsrsrs. Amanhecíamos
com as músicas gravadas numa fita K7, mas nesse processo, mudamos as músicas
várias e várias vezes nessa época, apesar de que as duas últimas que compomos
foram feitas quase que diretamente sem tantas mudanças e complementações.
Chamamos Murilo Nóbrega e Rogério Mendes para compor conosco a
primeira formação. Eles eram membros da banda
Decomposed God e na época, eu estava muito próximo a todos do Decomposed God, ia aos ensaios, era um
verdadeiro grude, mas por inconsistências de horário, eles deixaram a banda
ainda bem no começo depois de alguns ensaios, nem tínhamos letras feitas e o
nome provisório da banda era Eccumenical
Damnation.
Convidamos Belchior
de Melo para tocar bateria, e ele trouxe Leonardo Mal’lak, que já tocava com ele na banda de Black Metal Darkness Emperor.
Leo trouxe a
ideia de escrever sobre vampirismo mesclando com o que ele lia na época, livros
de Anton LaVey e Aleister Crowley e
uma Bíblia do Vampirismo, não lembro o autor dessa última referência. Depois, ele
acompanhou o início da construção filosófica que Hellhammer criou e Mal’lak
sempre nos falava sobre o Movimento Luciferiano ser de uma magnitude tamanha
que encanta qualquer inquietude espiritual, e daí nasceu o interesse em outras
religiões e outras culturas. O som encaixou e começamos a ensaiar com mais
frequência, mas demoramos muito a montar um repertorio. Acho que o fato de
naquela época 3 membros da banda, inclusive eu, tocarem em 2 ou 3 outras bandas
ao mesmo tempo fez com que o processo fosse lento mesmo. A partir da gravação
da primeira Demo Tape intitulada “... The Darkness... The Wrapping Tranquillity …” em 1997 foi
as atividades na banda ficaram mais intensas, criamos mais músicas e realizamos
nosso primeiro show apenas em 1999 no festival Blizzard of Rock. Depois desse primeiro show, chamamos a atenção
local e fomos convidados por João
Marinho da Blackout Discos de Recife
para abrirmos o segundo show da história do Krisiun em Pernambuco em 2000. Ganhamos mais notoriedade com esse
show e ficamos conhecidos em várias cidades do nordeste, pois quem tava no show
repercutiu bastante ao voltarem pra suas cidades, principalmente pela qualidade
impressionante e técnica de Breno e Erick, que na época eram sem dúvida uma
espécie muito rara no Metal. A maioria dos músicos não sabia tocar tão bem, nem
estudavam música a sério, eu era um deles, mas tinham exceções, claro. Em 2001
tentamos abrir para algumas bandas, mas decidimos não tocar na hora dos shows,
pois a produção tinha nos prometido boas condições de show. Acabou que os
headlines não nos deixaram passar o som nem tocar na bateria antes deles
tocarem. Isso seria umas 2, 3 da manhã, ainda pra passar o som pra depois tocar
lá pras 4 da manhã! Não topamos. Se não tivermos condições de mostrarmos nosso
som com qualidade, preferimos não tocar. Tocar é uma consequência sob o aspecto
de nossa filosofia. Nosso terceiro e último show dessa fase foi em 2002.
Abrimos pro Monstrosity e foi nosso
melhor show dessa fase! Eu já estava planejando migrar pros EUA e quando isso
aconteceu no meio do ano, a banda acabou, pois nem Breno nem Erick quiseram
continuar a banda sem os 3 na banda.
Elizabethan Walpurga (Walpurga da era Elizabetana) é a
celebração da noite de Walpurga (Walpurgis, Walburga, Waelbyrga), a
Walpurgisnacht dos tempos medievais, o Sabá da renovação. É a noite da libertação,
a união das sombras com o fogo ritualístico pagão. As portas do submundo
estariam abertas nesta ocasião de festejos para atrair energias renovadoras,
purificadoras, estimulantes. A Walpurgisnacht medieval foi caracterizada como “a
noite das bruxas”!
BD: Houve um
hiato entre 2002 e 2015, quando voltaram à ativa. Renato, sabemos que foi por ter ido viver um tempo nos Estados
Unidos, mas na época foi o fim ou você tinha a ideia de um dia voltar e retomar
os trabalhos do ELIZABETHAN WALPURGA?
Renato: Na época,
todos pensaram que era o fim mesmo, mas eu sempre comentava que não achava que
iriamos acabar daquela forma. Com alguns amigos fora da banda, sem registrarmos
as 9 músicas que criamos naquela fase, sendo que a última música não chegamos a
tocar em estúdio e ainda não tem letra até hoje.
Desde que voltei dos EUA em 2007 que eu procurava uma chance
de voltarmos, mas o momento de cada um de nós não nos permitia nenhuma forma de
nos planejar.
Erick estava
morando no Rio de Janeiro, Leonardo
em Natal, e Breno tocando
profissionalmente com 1349 bandas diferentes do forró ao jazz, do frevo a MPB, e
tinha outros trabalhos autorais como na banda Treminhão, e eu tinha de recomeçar minha vida, mas sempre falava
com Breno que se voltássemos
teríamos êxito, pois até aquele momento eu não tinha escutado nenhuma banda
parecida com o que fazíamos. Breno sempre
falava que só voltaria se fosse para gravar as músicas, mas não lembrávamos
mais das músicas que não tínhamos registrado, lembrávamos de algumas bases, mas
não das músicas por completo!
Então em 2014 recebemos um convite do Sávio Diomedes, nosso velho amigo Hellhammer da banda Lord
Blasphemate para lançarmos um Split com nossas Demos de grande sucesso, e
impacto na cena Metal do nordeste nos anos 90. Ficamos muito honrados, mas a
qualidade sonora da demo era péssima. Quase não conseguíamos ouvir as linhas de
baixo. Foi então que reequalizamos a Demo com nosso amigo Pierre Leite, que veio a compor depois comigo e Nenel Lucena a introdução “Exordium” do CD “Walpurgisnacht”, e mandamos pro Sávio que tinha em mente lançar o selo dele chamado de Ordo Draconian Black Label, o que
ocorreu tempos depois.
Entre a entrega do material e o lançamento demorou mais de
um ano e um dia no começo de 2015, eu fui à casa de Breno com o irmão mais novo dele, Victor, para procurarmos as fitas
que costumávamos gravar nos ensaios em um micro system.
Fita por fita, fomos tocando-as e bebendo, tocando e bebendo,
e lá pras tantas conseguimos achar uma única no meio de umas 50 fitas com uns
ensaios em que registramos o momento em que estávamos pegando as músicas entre
98/99, cometendo alguns erros ainda, tocando as músicas de forma diferente de
como as tocamos, ainda sem letras. Tínhamos várias k7 dessas, de vários
momentos da banda, inclusive com Beto
Santos e depois com Osvaldo na
bateria. Mas dentre as 50 k7 que Breno
guardava de várias gravações de projetos em que ele tocava, apenas essa era da ELIZABETHAN WALPURGA, então supomos que
as outras fitas se perderam no tempo e nas mudanças de casa, mas achamos as
músicas e isso foi muito empolgante. Na hora já entramos em contato com Erick e com Leo sobre termos achado 4 das 5 músicas perdidas. Os dois toparam
na hora e já ficamos pensando em quem seria convidado para tocar bateria.
BD: Bem, em 2015,
vocês retomaram a banda, e já começaram mandando ver em shows, inclusive com a
abertura para o grupo americano ABSU.
Como foi a acolhida do público após o retorno? O saldo tem sido positivo?
Renato: Sim,
voltamos em 2015 apenas para gravar o CD “Walpurgisnacht”,
mas só ensaiamos às vésperas do show que fizemos em setembro de 2016, o show de
10 anos da banda Subinfected, e logo
depois fomos chamados para tocar no festival Visions of Rock, neste evento do ABSU. A receptividade foi excelente e muito além das nossas
expectativas.
Tem um vídeo do primeiro show no Youtube no Burburinho Bar e
o Visions of Rock fez um DVD desse show e oportunamente iremos disponibilizar
esse material em nossa pagina do Facebook e Youtube também.
Em 2017, fizemos apenas 2 shows. O de lançamento do nosso CD
pela Shinigami Records em abril, também no Burburinho, e logo depois um show
fantástico em Caruaru com Alejandro
Flores substituindo Breno. Alejandro é um excelente guitarrista,
de bandas como Inner Demons Rise, Decomposed
God nos anos 90... Mas por causa da volta de Breno para finalizar seu mestrado em música em Portugal, e devido a
compromissos profissionais de Erick
em cursos de reciclagens que teve de fazer fora de Recife, não pudemos aceitar
alguns shows desde então. Voltaremos sem dúvidas a fazer shows novamente em
2018, provavelmente a partir de março, abril e planejamos lançar algumas
músicas inéditas, principalmente a música remanescente dessa primeira fase, uma
música feita por Erick em 2002, que
ele reorganizou agora a pouco tempo.
BD: Falando um pouco do disco. “Walpurgisnacht” mostra uma banda que ousa mostrar um trabalho
diferente do que vemos no Brasil, essa mistura de Black Metal com melodias
vindas do Metal tradicional. Como os fãs têm encarado essa musicalidade
híbrida?
Renato: Recebemos
quase sempre críticas muito positivas em relação a essa diversidade presente na
nossa música, e de como as musicas são diferentes das coisas que os fãs escutam
em outras bandas. Já vimos alguns comentários contrários sobre nossa música
também, mas não nos incomodamos quando temos uma crítica negativa, afinal de
contas, cada um tem o direito de gostar do que quiser gostar! Achamos tão
normal quando alguém ama nosso som ou quando odeia, e não julgamos ninguém por
isso. Tenho grandes amigos que não gostam da banda e fazem suas críticas, mas
você não gostar da minha banda não te faz meu inimigo, nem você gostar te faz
meu amigo!
Para nós essa mistura de sonoridade, de musicalidade é muito
natural, pois sempre fomos assim durante nossas vidas.
Gostamos de Beatles
desde criança e escutávamos bem antes de começarmos a escutar Heavy Metal.
Todas as noites nós descíamos dos nossos apartamentos para ficar tocando, era
uma grande mistura, mas isso exemplifica que nunca separamos a música por
estilos ou por rótulos e sim pelo que nos agrada e pelo que não nos agrada.
Fica muito difícil exibir todas as camadas de todos os diferentes
sons de que sou feito e de que me apropriei e, de tudo que vem de influência,
antes de escutar Rock Progressivo, antes de escutar Heavy Metal, antes de
escutar Rock e de antes de escutar coisas modernas “lá da minha modernagem”.
Discos belíssimos que escutei na infância como os 3 primeiros álbuns do Quinteto Violado (“Quinteto Violado” 1972, “Berra
Boi” de 1973 e “Feira” 1974) ou
os discos da Banda de Pau e Corda
daqui de Recife também dos anos 70!!! Depois de digerir esses discos do Quinteto Violado ainda criança, eu já
me achava pronto para ouvir qualquer coisa com apenas 7 anos. Foram as melhores
definições de como de fazer arranjos para uma música que eu tive e só depois de
muitos anos, quando eu conheci coisas mais complexas foi que as coisas
começaram a serem substituídas na forma de pensar essas estruturas musicais. Algo
de muito além do tempo e de escutar aquelas músicas em 1977, 1978 forjaram a
minha percepção de música e de ocupação de espaços na música e que podemos
ocupar através de uma ilusão sensorial de viajar mesmo por esses acordes e
arranjos, que nos transportam para a irrealidade da vida e isso é o que eu
chamo de perfeição! E nada mais que eu diga a partir de agora vai definir
melhor o que é minha música para mim mesmo!
Então não é só escutar e reconhecer influências como Iron Maiden ou Mercyful Fate, são camadas de músicas das mais diversas
incorporadas, porque somos 5 e trazemos muita musicalidade das nossas vidas. Fazemos
música principalmente para satisfazer a nós mesmos!
BD: Sobre o
repertório de “Walpurgisnacht”,
quantas e quais são as músicas antigas, de antes de pararem, e quais são as
novas? E quais as mudanças que sentiram entre as versões mais antigas e as
novas, e as diferenças entre o material antigo e as novas composições?
Renato: Com
exceção da intro “Exordium”, todas as
músicas são composições da primeira fase da banda. Alguns arranjos com certeza
mudamos, acrescentamos ou cortamos alguma coisa de linha de baixo ou uma frase
de guitarra, talvez, mas quem nos conhecia na época relata que se lembra das
músicas claramente, mesmo depois de tantos anos, quando escuta “Walpurgisnacht” hoje. Queríamos que
este capítulo estivesse presente na nossa biografia de forma a enaltecer todo
aquele momento, que representa quem éramos quando compusemos essas músicas. Mas
hoje em dia tocamos mais do que tocávamos naquela época, especialmente Breno Lira e as condições de gravações
são infinitamente melhores e mais baratas. Queríamos dar as músicas o devido
valor que nós sentimos por elas e “Walpurgisnacht”
nos representa e temos muito orgulho do que conseguimos obter, independente de
qualquer crítica que já recebemos ou venhamos a receber. A principal mudança
está no fato de que não é o mesmo baterista e na minha concepção uma banda
qualquer, não apenas a EW, muda bastante quando o vocalista ou o baterista
muda, mas isso não foi um problema. Arthur
é nosso quinto baterista e estamos bastante satisfeitos com a performance dele
no CD, principalmente por ter gravado tudo em umas 7 horas de estúdio, parando
apenas pra comer uma pizza, ele é surpreendente!
Outra diferença é o fato de que na época as letras não foram
bem traduzidas. Por isso foi feita uma nova tradução das letras originais em
português e com isso algumas partes mudaram drasticamente. Como Mal’lak não teve tempo de estudar essas
mudanças, ele teve de cantar na hora da gravação, pra logo em seguida voltar
para Natal sem chance de vir novamente ao Recife em alguns meses, pois a filha
mais nova dele havia nascido ou estava prestes a nascer. E ficou perfeito a
vocalização e o timbre de voz que ele conseguiu colocar naquele dia foi melhor
do que esperávamos, mas depois dele gravar, senti alguns vazios causados por
essas mudanças nas letras das músicas, talvez. Então acrescentei meus backing
vocais nas músicas para dar mais consistência, mais dramaticidade. Antes eu só
cantava num trecho de “Walpurgisnacht”
e dava alguns gritos vampirescos “Udo
Dirkschneidianos”!!! Mudou a forma como tocamos, pois hoje tocamos as
músicas de forma mais cadenciada e nos sentimos bem executando as músicas da
forma como tocamos hoje. Sempre escutamos referências de que ao vivo parecemos
iguais como tocamos no CD, mas não é verdade, pois no disco colocamos até 4
guitarras fazendo coisas diferentes e em vários trechos, mas a forma como Breno e Erick constroem os acordes, os possibilitam preencher espaços.
Quando escuto Breno tocar, penso que tem ali dois guitarristas tocando ao mesmo
tempo, porque ele sempre coloca terças, quintas e por ai vamos dando mais
textura ao nosso som.
Estamos compondo novas músicas. Fiz 5 músicas e Erick fez uma, além de bases soltas que
temos e a música de Erick
remanescente da primeira fase. Arthur também está compondo alguma coisa, ele
tem uma guitarra de 8 cordas! Animal!!!
Estamos mais maduros e isto está presente na forma que
compomos hoje.
Eu diria
que a maior diferença entre as músicas antigas que gravamos em “Walpurgisnacht” e as que estamos fazendo agora é
que as novas estão chegando naturalmente mais complexas e com novas sonoridades
presentes e isso é muito instigante! Escrevi 3 letras inteiras e Mal’laktambém está escrevendo. Não
estamos mais escrevendo exclusivamente sobre vampirismo, pois outros temas nos
atraem. Estamos lendo autores como E. A.
Poe, H. P. Lovecraft, Von Däniken, Sávio Diomedese mais profundamente sobre Luciferianismo, então acho que refletiremos
mudanças neste sentido. Estou com vontade de cantar mais com vocais limpos e
iremos testar algumas coisas quando entrarmos em estúdio para ensaiar as novas
músicas.
BD: Existem
alguns convidados no CD, que são Nenel
Lucena, Gustavo Coimbra e Rogério
Mendes nos backing vocals. Como foi que tiveram a ideia de chama-los para
participarem?
Renato: Bem,
desde o planejamento eu já tinha convidado Rogério
e Gustavo para participarem da
gravação do CD. Na verdade, a única coisa que eu tinha em mente eram os gritos
que queria colocar em “Walpurgisnacht”,
mas no dia em que foram ao estúdio tivemos essa ideia com Gustavo, que tem um dos melhores vocais que eu já ouvi em minha
vida (fica a dica banda ARKTUS)
acabou gravando em “The Elizabethan Dark
Moon”, com uma ajuda fundamental de Nenel
Lucena para praticamente arranjar os vocais dele. Em “Walpurgisnacht”, eu quis colocar uma diferença potencial entre o
grave de Rogério com o rasgado
enfurecido de Mal’lak e o contraste
ficou exatamente como eu queria.
Foi muito bacana tê-los conosco no estúdio, especialmente Rogério que foi nosso primeiro
vocalista. Mas Gustavo Coimbra é um
grande amigo meu, um irmão que levarei pro resto da minha vida e ele canta
muito \m/. Gostaria que todos
cantassem na banda, acho que eu exploraria bem vários vocais ativos ao vivo,
rsrsrsrsrs.
Fui fazendo alguns backings, e ainda senti falta de uma
coisa mais encorpada na minha voz, pois é muito estranho ouvir a própria voz,
foi então que tive a ideia de fazer várias camadas com ela, como em “Infernorium”: “… I feel things that no
human heart can feel”
eu faço 4 vozes diferentes, e fiz isso em vários momentos do CD, as vezes
fazendo 3 vozes uma em cima da outra, 4 ou 5 e nem sempre eu quis sincronizar
essas vozes, pois tem momentos em que queria enfatizar que eram como se fossem
2 ou 3 seres proclamando ao mesmo tempo. Com a exceção de “Exordium” onde colocamos efeitos de estúdio, pois queria dar outra
dimensão, já que se trata de um ritual para ressuscitar um Lord vampiro. Gostei
muito dessa forma de colocar meus backings nas músicas. Não tem nenhum efeito
de estúdio na voz, são várias camadas de minha voz. Teve um dia em que gravei
rouco e isso deu uma diferença, pelo menos na minha audição desses vocais.
Mas nos próximos trabalhos pretendo fazer todos os backings
vocals.
BD: Se por um
lado as músicas possuem um diferencial e tanto no hibridismo de Metal extremo
com “insight” melódico, as letras parecem acompanhar, e mesmo focando temas
mais obscuros, fogem do satanismo barato. Estou certo? Quais os conceitos e
qual a mensagem que desejam passar com suas letras?
Renato: As letras
tratam do crescimento pessoal de cada indivíduo, tornando o ser humano o centro
do universo e o líder de seu destino. O próprio ser que o definirá como vencedor
diante das hipocrisias da sociedade. As nossas mensagens batem de frente com
alguns valores deturpados que nos são impostos desde o nascimento; a temática
de nossas letras passa por um arcabouço social humanista, política-comportamental
e, principalmente, uma crítica forte às crenças escravizantes que dominam o
mundo há séculos sobre o “manto sagrado” politico, corrupto e opressor das
igrejas cristãs no mundo, que valorizam a obediência cega, em detrimento à
natureza humana.
Mas vamos lá, não somos fundamentalistas quanto a religiões
como um todo, não temos uma identidade única quanto a religião e cada um é cada
um. Ateu, luciferiano, budista, satanista? Não damos muita importância a essa
particularidade de cada um de nós na banda.
Particularmente, acredito em várias coisas. Em minha
opinião, a crença é como costurar panos velhos de vários pedações, tamanhos e
cores, que a mim me parecem serem logicamente sensatos em acreditar. Não
acredito que uma única pessoa dizendo que é dono da luz ou das trevas, nem que
organizações humanas possam ter um pensamento correto e que resuma tudo numa
verdade só.
Um Luciferianista se espelha em
entidades para sua filosofia, suas ações e exercícios de pensar,
desenvolvimento, progressão, ser você mesmo e melhor a cada dia. Devemos conhecer
ambos, as Luzes e as Trevas em seu caminho, nunca se prendendo a nada e sendo
livre para fazer o que quiser. O Luciferianismo é uma filosofia que busca a “Sabedoria
da Luz”, pode-se assim dizer.
Acho muitos aspectos
interessantes em religiões orientais como no budismo ou no hinduísmo, mas não
sou adepto a elas. Não acredito em nada que prenda o homem ou o pensamento
dele. Acredito na liberdade individual de cada um, mas infelizmente as pessoas
não respeitão o que não conhecem e passamos por momentos muito equivocados de
todos os lados.
Bom, abordamos o tema
vampirismo e sei que Mal’lak foi
muito influenciado por Anton LaVey e
Aleister Crowley, mas o real sentido
que resume bem nossa mensagem, em minha opinião, é liberdade! Seja livre e
pense você mesmo sobre o que vai ler em nossas letras, faça suas reflexões! Acho
que esse é sempre o melhor caminho, tirar minhas próprias conclusões e na
maioria das vezes não estou nem a fim de mudar o pensamento de ninguém, eu já
tenho coisas demais para pensar na vida. Trabalho, aprimoramento profissional,
eu tenho uma vida normal, sou pai de uma menina de 3 anos que amo e aprendo
bastante com ela. Acho que tem muita gente por aí precisando amadurecer, não só
na idade, porque na real, isso nem sempre nos define, mas amadurecer suas
ideias, refletir consigo mesmo, buscar seu autoconhecimento, enfim...
Você pode imaginar um vídeo
passando em sua imaginação, um filme, um passeio pelas florestas da Eslováquia,
ou pelo Rio Danúbio, imaginar uma história de terror ou uma história de amor,
brutalidade melódica ou extremismo melancólico, e isso tudo é em nome do que nós
acreditamos, das ligações que temos com o sobrenatural, com o escuro e com a
escuridão, e nós gostamos da escuridão mais do que da luz e assim vai...!
Somos canalizadores de
energia e energia é o que há de mais fundamental e mais poderoso no universo!
Consigo receber e ceder minha energia e isso também é uma forma de vampirismo
num conceito mais moderno, então, somos apenas a fantasia de muitas almas? Há
mais palavras ao redor de nós mesmos e entre nós do que podemos enxergar,
acredite! Também somos fascinados pela loucura sanguinária da Condessa Elizabeth Bathory e ela está
presente em nossas poesias em seu espírito sanguinário e quando compomos
bebemos a ela.
BD: Como foi que
escolheram a Shinigami Records para lançar “Walpurgisnacht”?
Renato: A
Shinigami veio através da Débora Brandão
da Metal Media, que faz nossa assessoria de imprensa.
Discutimos outras 3 propostas para lançarmos o CD em formato
físico, sendo 2 selos europeus e um aqui mesmo do Brasil, mas acreditamos que a
escolha da Shinigami representaria para a banda um “Plus” bem estruturado, pois
sua reputação e credibilidade falam por si só e temos uma visibilidade real de
estar presente na cena de heavy metal do Brasil. Quando alguém nos compra o CD e
percebe o selo da Shinigami já sabe que o produto é de primeira qualidade.
Estamos satisfeitos com o que alcançamos dentro desse
planejamento.
BD: Como tem sido
a resposta de público e crítica para “Walpurgisnacht”?
E verdade seja dita: vi muita gente tratando o ELIZABETHAN WALPURGA como uma das revelações de 2017.
Renato: Que
bacana, não sabia desse tipo de comentário sobre nós, pois nos sentimos uns velhos
cheios de coisas para começar. Isso nos honra, pois esse reconhecimento do
público e da crítica não tem preço. Não tem preço um cara chegar depois do teu
show e dizer “vocês tocam um som da Pooorra!!!”
Hoje tenho mais de mil “amigos” no Facebook e 70% deles
vieram por causa da banda. Me sinto bem em estar próximo de nosso público e de
me tornar amigo de alguns deles. Tanto no Brasil como no exterior a resposta do
público é maravilhosa, muitos elogios!
Até agora só recebemos ótimas resenhas sobre o CD. Algumas críticas
sobre a sonoridade, mas preferimos uma coisa mais crua, mais engastada para dar
maior sentido as composições, ao clima das letras e criar um ambiente em que si
possa acreditar que existam naquelas composições. Quando você escuta o som da ELIZABETHAN WALPURGA, você pode não
escutar originalidade e não é esse o nosso propósito, mas você vai escutar um
som que você não encontrará em outra banda por ai nem em 5 mil CDs diferentes
que você escute aleatoriamente, não adianta procurar, porque não seguimos os
padrões que outros músicos de Black Metal tocam, ou como seguem seus intuições e
procuramos dar as nossas músicas uma identidade única, mas o conjunto delas
retratam algo mais, como uma estória contada num filme de vários capítulos. Respiramos
arte e fazemos arte em forma de música. Oferecemos a quem quiser ouvir!
Não recebemos quase nenhuma crítica escrita no exterior, mas
em contraponto, estamos tocando mais nas rádios undergrounds dos EUA que no
Brasil. Estamos tocando em algumas rádios em Portugal e já fomos destaque em
outras rádios na Alemanha e Colômbia, por exemplo, mas gostaríamos de ter maior
exposição fora do Brasil, pois temos potencial para isso.
BD: Já que
falamos em público, a quantas andam os shows? Fale-nos como são as casas de
shows, eventos e mesmo estrutura de sua cidade e vizinhanças.
Renato: Infelizmente,
com a mudança de Breno para Portugal
em 2015, para realizar seu Mestrado, ficamos muito restritos para fazer shows.
Ano passado, ainda conseguimos no segundo semestre fazer dois shows porque ele
estava aqui em Recife fazendo umas pesquisas relacionadas ao Mestrado dele, e
também no lançamento do nosso CD em abril. Mas mesmo assim, convidamos nosso
amigo Alejandro Flores, que nos
acompanhou em duas músicas no show de lançamento do CD e fez o show no lugar de
Breno em Caruaru, mas por causa de
compromissos profissionais Erick teve
de viajar muito a trabalho neste semestre e com já estamos com um guitarrista
titular fora, tocar sem Erick seria
bastante complicado, pois as músicas são muito complexas e com muitas variações,
inversões e mudanças de andamento.
Ano passado, tivemos bons shows undergrounds com bons
públicos, mas neste ano sentimos bastante pela crise que nosso país atravessa.
Fui a shows de ótimas bandas nacionais e internacionais como headlines, que levaram
pouquíssima gente pros shows, acho que dando prejuízo pros produtores. Mas vejo
que isso está acontecendo em outras cidades onde rola uma cena mais forte de Metal,
inclusive em São Paulo. O público de hoje está indo menos aos shows, mas isso
não é privilegio do Metal nacional, pois a forma com que os jovens de hoje
lidam com música e como essa música chega até eles mudou muito. Precisamos
entender mais e criar algo como o “business do Metal” algo que se sustente e dê
oportunidade às bandas locais, além de trazer bandas de fora da cidade para
enriquecer o cenário, a cultura headbanger. Pelo menos aqui em Recife não temos
lugares assim.
Em Recife, temos dois grandes festivais organizados pela
mesma produtora que são nosso orgulho. O Abril
Pro Rock há duas décadas e o Hellcifest
em sua segunda edição, são espetáculos bem estruturados e atraem público de
vários estados do Nordeste.
Fora isso, temos algumas pequenas produtoras que, por hora, estão
passando por esse momento difícil. Antes tínhamos um local onde os headbangers
da cidade sempre se encontravam nos finais de semana, independente de ter show
ou não e esse lugar não está mais disponível. O Dokas era a grande casa do Metal
pernambucano nos anos 90 e 2000.
Uma pena, pois atravessamos um bom momento da música extrema
em Recife, com várias bandas novas lançando grandes músicas e bandas antigas
voltando e outras gravando.
Mas estamos animados em poder tocar aqui em 2018 e em outras
cidades. Estamos planejando uma mini turnê por algumas cidades do nordeste com
a Lord Blasphemate, Agnideva e Pantáculo Místico e se conseguirmos
concretizar será histórica essa tour!
Tem uma cena boa em Arapiraca, em Alagoas. Caruaru já teve
uma cena Metal maior, mas mais hoje está com menos público. O interior do
estado tem muito headbanger que dá valor a cena suas cenas locais e em lurares
como Surubim, Toritama e Paudalho tem mostrado a força do interior. O mesmo
acontece em Petrolina, que está em fase de crescimento da cena. Vejamos como
será ano que vem e depois, mas queremos tocar onde nos convidarem e já temos um
pré-convite para tocar num festival em São Paulo ano que vem. Se conseguirmos
encaixar outras datas será bem legal poder tocar no sudeste pela primeira vez.
Temos uma cena forte em Natal e Mossoró no Rio Grande do Norte, em Fortaleza e
em Campina Grande na Paraíba, mas se compararmos com a cena dos anos 90, hoje
não temos nem a metade do público que ia aos shows antigamente! Não tinha Youtube
pra ver o show de casa comendo pipoca e tomando cerveja barata!!!
BD: Ainda sobre shows, existe alguma boa proposta de fora? E
já está na hora do ELIZABETHAN WALPURGA
se aventurar pelo eixo RJ-SP-MG, pois chega a ser uma lástima que uma banda tão
boa fique restrita ao Nordeste.
Renato: Sim, nada
de concreto, mas já fomos sondados para tocar num importante festival que
acontece em São Paulo (estado). Se isso se confirmar podemos fazer uma tour fechando
algumas datas, mas nenhum convite em Minas ou no Rio até o momento.
Mesmo pra tocar hoje aqui no Nordeste tem de ser muito bem
planejado, porque as vezes acontecem outros eventos que diminuem o público nos
shows.
BD: Apesar de “Walpurgisnacht” ainda ser bem recente,
já existem planos para algo novo em 2018?
Renato: Nada
concreto. Não sabemos se teremos tempo de gravar alguma coisa ou se as músicas
já estarão prontas. Gostaria de colocar alguma música nova numa coletânea
lançando um single ou um EP com algum cover que nos identifique. Falei com Hellhammer para ele lançar uma
coletânea só com bandas do Nordeste, que estejam no contexto que ele enfatizou
meses atrás quando lançou o manifesto da Nova
Tempestade do Black Metal Nordestino, mas os planos estão voltados mais
para realizarmos a maior quantidade de shows possíveis e gravarmos um vídeo clipe,
até já escolhemos qual será a música, talvez um show ao vivo pra gravar um DVD,
nada de concreto mesmo!
BD: Muitos podem
querer dar palpites nessa pergunta, mas vamos apimentar um pouco: há algum
tempo, muitos bangers têm dado uma de moralistas em relação ás artes
degeneradas. Agora, como consequência, um projeto de lei de um deputado da
bancada evangélica pode acabar censurando o Metal. O que acha disso? Não acha
que esse conservadorismo moralista de muitos seria um sinal que a pessoal ouviu
o Metal, mas não compreendeu a liberdade que ele nos concede?
Renato: Sim, eu
acho que todo mundo pode dar seu palpite seja para elogiar ou para criticar
mesmo no que quer que seja, e ninguém tem nada haver com isso, mas acho que
ninguém tem o direito de denegrir a imagem de ninguém, de julgar ninguém pelo
que elas escutam na música ou deixam de escutar, da forma como cortam seus
cabelos, das roupas que usam, de sua cor, de sua raça, de sua idade, de sua
identidade, enfim, não pactuamos com esse tipo de pensamento restritivo. É como
se você pudesse descrever quem uma pessoa é simplesmente por algumas escolhas
que elas fazem, num campo totalmente subjetivo, ou seja, ninguém é bom caráter
por ser satanista e ninguém é mau caráter por ser cristão, na minha opinião!
São outros valores que devem servir para uma pessoa fazer parte ou não de sua
vida. Isso não nos faz melhores do que os outros, apesar de acreditar que a
evolução pessoal de cada um, dentre outros 1777 argumentos, acredito que nos
tornamos melhores que os outros quando comparamos nossas capacidades,
habilidades, enfim, mas infelizmente caminhamos por caminhos diferentes e
vivemos uma época onde a intolerância tem voz ativa e, por causa proporção que
um post, pode-se atingir, nas redes sociais, pessoas potencialmente inocentes, mas
sendo bem sincero, estou “cagando e andando” em cima do que essas pessoas
pensam ou deixam de pensar. As pessoas passam muito tempo observando o que os
outros fazem e esquecem-se de cuidar de seus projetos pessoais, vivem vidas que
não são suas, tentam se enquadrar em alguma coisa maior que elas próprias, pois
não se sentem seguras sentindo-se sozinhas e na minha opinião, quem se
restringe a experimentar coisas novas e diferentes, não estou falando de Heavy Metal
apenas, na vida de cada um sobre qualquer aspecto de sua vida, vai ficar pra
trás no tempo e não vai perceber o quanto perdeu até perceber que não há mais
tempo para experimentar mais nada!
Quem é você pra dizer o que eu sou, o que eu gosto, o que eu
devo comprar, o que eu devo escutar, a que shows devo ir ou não ir e quem é
você pra me julgar por isso? Sou muito maior do que o seu julgamento e qualquer
um pode se sentir da mesma forma, basta ser autentico e agir com dignidade.
Vivemos no país do faz de contas, no país dos milhões roubados
todos os dias, desde que o Brasil é Brasil e as piores necroses sempre foram e
sempre serão as elites desse país podre e das suas milhares de fantasias!
O governo faz de conta que governa. A gente faz de conta que
é cidadão. Os professores fazem de contam que ensinam e os alunos fazem de
conta que aprendem. Os legisladores fazem de conta que legislam. Os juízes
fazem de conta que julgam. Os advogados fazem de conta que acreditam que todos
são inocentes. As pessoas fazem de conta que se respeitam e que respeitam os direitos
dos outros, mas na verdade não respeitamos nem a nós mesmos! Veja que pais nós
construímos!!!
O que vai mudar na vida de alguém se souber que eu sou fã de
Lenine ou que Erick só escutou 4 ou 5 bandas de Black Metal durante toda sua
vida? De que vale a pena saber se Mal’lak
escuta mais Black Metal que qualquer outra coisa, ou que Breno não tem mais paciência para ouvir nada de Metal que foi feito
depois do “The Gallery” do Dark Tranquillity?
Essas pessoas dão suas opiniões porque necessitam de atenção.
Imagino o quão sozinhas são e de como são infelizes com seus cérebros
engessados pela intolerância e pela falta de curiosidade de conhecer o novo, o
diferente. Eu sei que também tem gente que é feliz de verdade sendo assim, mas
não cabe a crítica a quem é diferente de você?
Antigamente, quando não existiam redes sociais, as relações
de amizade eram bem mais próximas, então, quando algum amigo “dava uma de
radical” na minha turma, por exemplo, a gente criticava o cara, chamava logo de
“donzelo” ou de “tabacudo” e o cara meio que aceitava a crítica e não se
habituava a ser da forma radical, que pensou ser a maneira certa de agir. Hoje
em dia, o cara fala qualquer coisa lá e tem gente pra reverberar e pensar da
mesma forma, dá respaldo aquilo e vira uma bola de neve, mas no fundo as
pessoas compartilham suas opiniões e vivem as experiências que os ouros viveram
e perdem suas essenciais, sua originalidade, pois devíamos ser únicos e mesmo
assim convivermos com essa heterogeneidade de ser quem você é, de ser quem você
quiser ser! Mas o mundo mudou bastante...
Não concordo com esse tipo de pensamento, mas não acho que
ninguém seja pior ou melhor por causa disso. O que define a qualidade de uma
pessoa pra mim são outros valores e a mim não importam quantas bandas de metal
diferentes você conhece, se você sabe o nome de todos os integrantes de todas
as bandas ou quantos milhares de CDs você tem, e sim como você trata seus
amigos, sua família, como você (homem) trata sua esposa ou namorada, ou como
trata qualquer mulher, como você educa seus filhos, como você se importa de
verdade com seus filhos e não quantas vezes vocês fala “666 viva Satanás” por
dia!!! Se importar se um som é “puro” ou “impuro”, não faz nenhum sentido lógico
e por isso essas pessoas não têm a minha atenção, são como pessoas que na multidão
que passam por mim todos os dias nas ruas, isso na minha opinião e não estou
aqui querendo vender minha ideia a qualquer preço, mas apenas genuinamente expressando
a minha opinião sobre radicalismos de qualquer parte que seja.
A maioria, pra não dizer na totalidade, de quem coloca o
nome de um deus pra justificar qualquer coisa de seu caráter já não deve ser
uma pessoa confiável ou equilibrada, em minha opinião. Estamos vendo a bancada evangélica
totalmente envolvida com a corrupção no Brasil e as religiões ocidentais sempre
tiveram tentáculos no poder, quando não representavam o poder ela mesma. Nunca
se matou tanto em nome da religião quanto a igreja católica ao longo dos
séculos, nunca se manipulou tanto a fé das pessoas e a verdade sobre as
estórias criadas pelo poder para dominar mais ovelhinhas e as pessoas não
pensam nisso e quando pensam tendem a pensar que é uma história de faz de conta
e que está sendo contada num livro de história e que não foi real, que era em
nome de Deus “e Deus está no comando”!!!! Não coloque deuses ou demônios para
justificarem seus atos, seja você mesmo e as respostas serão mais claras em sua
vida.
As pessoas ficam chocadas se você diz ser um satanista ou um
luciferiano, mas não acham nada demais quando um padre católico é acusado de
pedofilia! Se importam mais se o cara tem tatuagem do que se tem caráter, são
valores que não fazem parte da minha personalidade. Como vou deixar de amar
minha mãe só por ela ser cristã??? Quem você odeia mesmo???
O Rock sempre esteve interligado com o novo, a transgressão
do que é consensualmente definido pelos padrões da sociedade. O Rock não
morreu, são as pessoas que estão envelhecendo muito antes do tempo!
BD: Ainda tendo
em vista a pergunta anterior, quais seriam as maiores diferenças entre os
headbangers da época em que começaram e os de hoje?
Renato: Tínhamos
valores diferentes, muitas diferenças como ainda temos hoje em dia, mas
priorizávamos as afinidades. Havia mais valorização do ser humano, mas não acho
que isso ocorra somente no meio do Metal, isso vem mudando na sociedade e as
pessoas são banalizadas pelas outras hoje, não se valorizam nem se respeitam
mais as individualidades, a não ser que você seja um dos que ditam as regras!!!
Me lembro de achar alguns garotos meio chatos na época da
escola e nem os conhecia de verdade, mas quando sabia que o cara era headbanger
a coisa mudava e passávamos por cima de pequenas diferenças, porque a
identidade de escutar Metal era maior do que as outras 2112 diferenças que
existiam entre dois possíveis amigos.
Há uma diferença em como as pessoas hoje constroem suas
relações com outras pessoas, mas isso é evolução, não adianta ser saudosista,
porque o trem já passou, já virou locomotiva e não adianta ficarmos feito os “corroas”
da nossa juventude, que achavam muita ousadia homem ter cabelo comprido ou
homem usar brinco ou camiseta cor de rosa!!!
BD: Bem, é isso.
Agradecemos pela entrevista mais uma vez, e, por favor, deixe sua mensagem para
seus fãs e aos leitores.
Nós que agradecemos a oportunidade e queremos deixar aqui
nosso muito obrigado e que estamos sempre abertos e disponíveis para o Metal Samsara e para essa imprensa underground,
que tanto tem nos valorizado.
Obrigado aos fãs, aos que acompanham a banda, aos que já
puderam comprar nosso CD, aos que já escutaram nosso CD, ou que baixaram em
sites piratas também, o que importa é que você dá valor ao que fazemos e vamos continuar
mesmo a fazer, pelo tempo que quisermos fazer!
Mais novidades virão em 2018 e esperamos encontrar com vocês
em nosso shows ano que vem! Fiquem ligados \m/
Somos uma banda de Heavy Metal do Nordeste do Brasil e não
estamos aqui para brincar com você, estamos aqui para produzir arte de alto
nível e não nos importa o julgamento que os outros façam dela, porque amamos o
que fazemos e não fazemos isso para os outros, fazemos para nós mesmo!
Nós sangramos o seu som e sangramos nossos sentimentos, nossas
almas em nossas músicas, porque somos a ELIZABETHAN
WALPURGA, somos uma banda de Metal de Recife \m/
Renato Matos.
06/11/2017.
Ouça as faixas “Infernorium”
e “Transylvanian Cry”: