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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

ATTRACTHA - Sem medo de encarar novos desafios (Entrevista)


Por Marcos “Big DaddyGarcia


Um dos nomes mais fortes dos últimos cinco anos em termos de Metal tradicional do Brasil é, sem sombra de dúvidas, o do quarteto paulista ATTRACTHA. Com apenas um EP e um álbum, se percebe que a banda evolui constantemente, mas em uma taxa muito grande.

Aproveitando o momento em que a banda se encontra colhendo frutos do álbum No Fear to Face Whats Buried Inside You (lançado em 2016), fomos bater um papinho com eles e saber um pouco da história da banda, bem como de seus planos futuros.


BD: Primeiramente, gostaria de agradecer pela entrevista. Vamos começar com uma pergunta simples: como foi que o ATTRACTHA surgiu? E de onde vem o nome?

Humberto Zambrin: Marcos, É um prazer!! O Metal Samsara sempre nos deu espaço e atenção! Agradecemos muito a você por isso!! A banda começou mesmo em 2012, quando conseguimos juntar pessoas com os mesmos ideais e objetivos musicais. Eu e o Ricardo Oliveira já tínhamos planos e músicas feitas há algum tempo, desde 2007, quando nos conhecemos, mas só formamos a banda em 2012 mesmo. O nome é uma derivação do nome Attracta, uma das possíveis grafias para o nome de uma Santa irlandesa, contemporânea de Saint Patrick. O nome é uma homenagem aos seres mais importantes que habitam esse planeta: as mulheres!


BD: vocês já tinham lançado um EP em 2013, “Engraved”. Olhando em perspectiva, o que mudou, evoluiu e melhorou entre ele e “No Fear to Face What’s Buried Inside You”?

HZ: Tudo mudou! (risos)… bom, dá pra começar explicando que a formação da banda que gravou o “Engraved não é a mesma que gravou o “No Fear…”. No novo trabalho temos a presença do Cleber Krichinak nos vocais e do Guilherme Momesso no baixo. Já dava pra sentir o que seria o álbum quando lançamos o single “Unmasked Files” em 2015. Nossas influências se expandiram nesse período, começamos a usar outras opções de afinação, enfim, tivemos tempo de amadurecer o conteúdo, como banda, como proposta sonora, saca? Obviamente, as coisas básicas como entrosamento da banda e a natural evolução musical ajudam muito, também.

Cleber Krichinak
BD: falando especificamente do álbum: qual a ideia está por trás do título? Óbvio que ele não foi aleatório, logo, deve ter algo nele. E qual o conteúdo das letras?

HZ: Ah, o título é auto-explicativo! (risos)… o conceito lírico do álbum transita pelos cantos mais inexplorados da mente humana. Algo como aquilo que não gostamos de expor, porém não só coisas negativas… tudo! É isso que exploro nas letras de cada música, os pontos mais íntimos dos conceitos e opiniões sobre temas diversos… é como se fosse uma boa viagem a uma mente aberta. Coloco ali pontos de vista que muitos escondem ou negam sobre vários assuntos, como doenças, religião, política, personalidade, caráter, etc… tem um pouco de tudo ali.


BD: O produtor escolhido para trabalhar com vocês foi Edu Falaschi. Como foi trabalhar com ele? Até que ponto ele influenciou as músicas de “No Fear to Face What’s Buried Inside You”? E por que não chamaram o sujeito para uma participação especial (risos)? Aliás, um elogio: a sonoridade do disco é de primeira!

HZ: Trabalhar com o Edu é a coisa mais suave do mundo! Obviamente que o trabalho de produtor e banda não é um comercial de margarina o tempo todo, mas ele é um cara nota 10, super coração bom e extremamente competente. Profissional de primeira! Quando sentamos para a pré-produção do álbum, tínhamos metade das músicas compostas e, obviamente, ali no meio, muita coisa que a gente queria melhorar. Ele mexeu bastante na primeira música, como se fosse uma aula de produção e depois foi nos orientando a trabalhar nas outras, permitindo que as músicas ficassem com a nossa cara, e não a dele. Ele aconselhava, clientela, e em alguns momentos até compôs umas coisas, mas sempre deixando a banda a frente de tudo. Dá pra ter uma boa idéia assistindo nosso mini-documentário em 13 episódios, “Facing What’s Buried Inside You” que está no nosso canal do YouTube! Nós convidamos ele pra participar sim, mas ele não aceitou! Na verdade, é um lance muito profissional dele, não participar dos álbuns que produz… Ali ele é produtor, não músico… Ele faz isso com todas as bandas (risos). E quanto ao som, ficamos felizes em saber que você gostou!!! Deu trabalho!! (risos)


Ricardo Oliveira
BD: Algumas bandas, como o ATTRACTHA, têm feito as mixagens e masterizações no exterior. No caso de vocês, por que fizeram isso, e como se deu a escolha de quem iria trabalhar nelas?

HZ: Bom, a indicação veio do próprio Edu. Num dia de trabalho das prés, ele me mostrou duas músicas do “E.V.O.” do Almah, já mixadas, que ainda não tinham sido lançadas e eu pirei. Dai eu disse q eu amava a sonoridade do “Unfold” do Almah também, e ele me disse que era o mesmo cara que tinha feito, o Damien Rainaud. Daí, já abri o canal de comunicação com ele e fechamos a mix e a master para o “No Fear…”. Os motivos de termos escolhido ele são simples: primeiro a sonoridade. Ele havia feito o álbum que eu tinha o som como inspiração, então já me parecia o caminho mais curto, e outro ponto é que, para os profissionais dos EUA e da Europa, os equipamentos tem custo muito mais acessível do que aqui no Brasil, então esses caras tem acesso a tudo do bom, melhor e moderno a um preço muito mais competitivo do que temos aqui no Brasil. Importante ressaltar que a qualidade dos profissionais daqui e de lá é equivalente, não acho que estamos “pra-trás” em conhecimento, mas em recursos, certamente. Então fomos nessa direção.


BD: Outro ponto interessante foi o formato da capa, um digipack que abre em vários. Existe uma motivação para terem escolhido fazer a capa dessa forma? E como que escolheram a arte do CD? Ah, sim: já que existe certo no ar pelos discos de vinil, existe alguma proposta para o lançamento de “No Fear to Face What’s Buried Inside You” nesse formato?

HZ: Ah, a motivação foi muito simples: como fazer uma pessoa entre 16 e 30 anos de idade comprar um CD na segunda década do século XXI? Simples: fazendo essa pessoa comprar “mais do que um CD”, um item de merchandising! A ideia foi essa, oferecer um “algo mais” para o fã e um atrativo para o não-fã ou para o desconhecedor. CD’s em caixinhas de acrílico não oferecem nada ao fã, na minha visão. Nesse ponto, procurei formatos diferentes, inspirado na experiência que tínhamos de comprar e manipular vinis lá nos anos 70 e 80… dai cheguei nesse formato. O problema é que nenhuma empresa no Brasil tinha os moldes para se fazer um produto assim, então tive que desenvolver exatamente tudo! desde o projeto e as dimensões do digipack, até o protótipo para mandar pra fábrica! Tem um vídeo oculto no nosso canal do YouTube com um protótipo miniatura desse digipack e eu explicando pros caras como fazer e como dobrar! Um dia vamos liberar isso! Já a arte, nasceu da inspiração no conceito e nas letras… ela é muito mais complexa do que se percebe, cheia de mensagens subliminares e de enigmas que podem ser desvendados pela galera! Basta sentar lá com a arte e ficar fuçando! O vinil desse álbum é um sonho!! Sendo sincero, tenho já a versão da arte e etc que podem ser usadas num vinil, mas quando fiz a cotação disso, desisti. Ainda é extremamente caro.


Guilherme Momesso
BD: O lançamento de “No Fear to Face What’s Buried Inside You” se deu no Manifesto Bar, na cidade de vocês. E pelo que soubemos, a recepção foi ótima. Qual a impressão de você sobre o show e público, justamente em um momento em que vemos casas fechando as portas por ausência de público? E falem um pouco do show recente, em que abriram para o Edu Falaschi.

HZ: Olha, esse lance de casas, público e shows é muito complicado mesmo. Dá uma tese de Doutorado (risos). No caso do lançamento do álbum, nós trabalhamos muito na divulgação do show, previamente, principalmente nas redes sociais. Isso é complicado e dá muito trabalho, porque cada vez que você faz um evento, tem que mudar a estratégia de divulgação, de como abordar o público e etc, então tivemos que fazer um bom trabalho de corpo a corpo, gerar expectativa e tudo mais. E deu certo! Foi um sucesso, do nosso ponto de vista. Já o caso da abertura em SP da Rebirth of Shadows tour foi um presente! O Edu me ligou e convidou a gente, porque achava que seria uma excelente oportunidade para nos expor. No fim, acho que todos nós ficamos surpresos! O show foi sold out, o que dá 1700 pessoas lá no Carioca Clube. Devemos ter tocado para cerca de 1200 a 1300 pessoas…estava lotado! Foi nosso auge. Seremos eternamente gratos por essa oportunidade!


BD: Em 2016, “No Fear to Face What’s Buried Inside You” recebeu várias indicações como um dos melhores discos nacionais. Como vocês enxergam isso, como a sensação de dever cumprido ou como uma motivação para fazer melhor no futuro?

HZ: Eu acredito que sejam ambos… Como eu já disse, esse álbum nos deu muito trabalho e cada detalhe foi feito com o maior carinho e dedicação. Nos superamos em diversos momentos. Receber as indicações e os prêmios cai pra nós como a recompensa maior do nosso esforço. Fico me perguntando quantas bandas tiveram seu primeiro álbum indicado e premiado como melhor álbum do ano? Mas passado o primeiro minuto de glória (risos) fica mesmo é a motivação! Se chegamos aqui com o primeiro álbum, temos que nos inspirar nisso tudo e certamente nos prepararmos ainda mais para o próximo! Se vamos conseguir? Vamos fazer nosso melhor, sempre!


Humberto Zambrin
BD: Hoje em dia, as mídias sociais são uma ferramenta e tanto para a divulgação de trabalhos, mas ao mesmo tempo, parece existir certo desdém do público para bandas mais jovens. Qual a visão de vocês sobre isso? E como quebrar essa resistência?

HZ: Uau… Outra tese de Doutorado! (risos). Resumidamente, acho que temos 2 situações que devem ser analisadas. A primeira é o poder da voz de qualquer indivíduo. A internet e as redes sociais são o maior exemplo da democratização dos julgamentos e é isso que a gente vê. Qualquer um pode falar o que for e tem o mesmo peso que um expert. Nesse sentido, não há só o desdém com bandas novas, mas com as “veteranas" também. O próprio Iron Maiden, uma das maiores bandas de todos os tempos, é constantemente julgado e desdenhado nas redes por muitas pessoas. Ainda lotam estádios porque, assim como outros gigantes, construíram suas carreiras numa época onde havia uma curadoria, haviam gravadoras e executivos que decidiam quem aparecia e quem não… Já parou pra imaginar quantas bandas excelentes acabaram e ninguém conheceu, porque a EMI estava investindo TUDO, no Iron? A quebra da resistência, ou como eu gosto de dizer, a exposição para a aceitação, no presente e no futuro virão exatamente da mesma forma que veio nos anos 70 e 80: Investimento! As bandas e artistas que se sobressairão, nesse cenário, serão aquelas que tiverem maior capacidade de captação de recursos e de transformação disso em base de fãs. Seja investindo em redes e mídias sociais, seja investindo em shows… No meu ponto de vista, até um artista excepcionalmente talentoso, mesmo nos dias de hoje, precisará sim de investimentos para se sobressair. Óbvio que hoje isso não é só dinheiro, pode ser patrocínio, pode ser exposição conjunta, mas no final, é captação de fãs.


BD: Essa é para ti, Humberto. Você tem uma série de vídeos com dicas para bateristas, certo? Como anda a receptividade e o feedback deles? E como tem sido a coluna no Música Fácil? E o blog que criou sobre o music business e outros para bateristas iniciantes? E verdade seja dita: são iniciativas que merecem aplausos em um mundo em que tantos escondem o jogo…

HZ: Ah, obrigado! Pilotar uma carreira “solo” como baterista, no Metal, no Brasil, é quase uma missão Hercúlea… mas eu sigo tentando ajudar as pessoas como posso. O Música Fácil abriu as portas pra mim, me cedendo a coluna onde procuro abordar um pouco de tudo, de técnicos até cotidiano. Por conta disso, nasceu a ideia do blog, que está mais ligado a dividir experiências, tentar trazer os jovens para um patamar mais próximo de quem já viveu diversas experiências profissionais dentro e fora da música. Esse blog vai migrar para meu canal do YouTube. Infelizmente o interesse pela leitura é menor que o pelo vídeo… mas de qualquer forma, tenho alguns tópicos que ainda vou abordar no blog, porque, no final do dia, adoro escrever!


BD: E como andam as coisas no ATTRACTHA ultimamente? Quais os planos da banda em termos de música, discos, shows para 2018?

HZ: Queremos ter uma agenda cheia em 2018, mas é difícil! Estamos negociando participação nos melhores e maiores festivais de Metal do país, mas é difícil. O Metal movimenta muito pouco dinheiro e o custo logístico de um show num nível bom, é extremamente alto. Estamos fazendo nosso melhor. Em 2017 fizemos SP, MG e RJ. Agora em 2018 já temos confirmado SC e estamos negociando outras oportunidades… devagar vamos indo. Quero muito colocar a pré-produção de um novo álbum ainda em 2018, mas tudo depende de agendas… vamos ver! Planos existem!!


BD: Bem, é isso. Mais uma vez agradeço pela paciência, e pedimos que deixem sua mensagem aos fãs.

HZ: Nós que agradecemos, e muito, o seu espaço e atenção! Aos fãs de Metal em geral que acompanham o Metal Samsara, nosso muito obrigado pelo prestígio, pela força e pelos elogios! Fazer Metal no Brasil não é nada além de paixão, sejamos banda, assessorias, sites, blogs ou qualquer outro meio. Portanto, prestigiem o trabalho de todos que procuram levar novas músicas até vocês!! Um forte abraço a todos e nos vemos pela estrada!!


Contatos:

https://www.youtube.com/HZambrin 

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Entrevista com Patrice Guers (RHAPSODY REUNION)

Por Isabele Miranda (Maximus Music Channel) e Vivian Oliveira (Valrock Zine)


Patrice Guers foi o antigo baixista da banda de metal sinfônica italiana RHAPSODY OF FIRE. Ele se juntou à banda depois que Alessandro Lotta deixou a banda e tocou com eles até 2011, quando ele saiu da banda com o guitarrista Luca Turilli para formar o LUCA TURILLI’S RHAPSODY. Depois de uma turnê Ásia no mês passado, Rhapsody retornará ao Brasil no dia 7 de janeiro em São Paulo, no Tom Brasil. Na sequência, a banda segue para 6 países da América Latina e depois segue para a Europa. Confira a entrevista com o baixista da banda!



Você tocou com o RHAPSODY OF FIRE de 2002 a 2011. Por que resolveu deixar a banda naquela época?

Patrice Guers: Após o fim da saga no RHAPSODY OF FIRE, Lucna decidiu começar uma nova banda, a LUCA TURILLI’S RHAPSODY, e me pediu se eu queria estar nela com ele. É claro que foi uma honra seguir a aventura com tamanho compositor, adoro o universo musical dele. Foi algo realmente natural. Após tantos anos compondo com a mesma banda, eu consigo compreender totalmente a necessidade de Lucca de novas aventuras musicais com liberdade plena. Da mesma forma, também é muito bom voltar às raízes com a RHAPSODY REUNION após alguns anos.


Com tantos shows e turnês longas, como você concilia tudo isso com as aulas de baixo?

Patrice: Estou livre das clínicas de baixo e aulas. Posso planejá-las quando estou disponível, e também dou aulas de baixo pelo Skype. Logo, não existem problemas de estar em turnê. Fazer turnês e tocar em shows é minha atividade principal nos últimos 25 anos, amo fazer isso.


Em sua opinião, o que difere o público latino americano daqueles de outros continentes?

Patrice: o público latino americano é fantástico! E não é um cumprimento, mas verdade! Quando estamos aqui, eles nos seguem do aeroporto até o show, J. Adoro a atmosfera latina, o bom clima, as pessoas rindo, dançando, ouvindo música... Descobrir a cultura latino americana, andar pelas ruas, visitar lugares e encontrar as pessoas é algo necessário para mim. Não é só vir aqui, tocar e depois voltar para casa.


Quais são os planos após a turnê europeia?

Patrice: Com o RHAPSODY, absolutamente nenhum, J


O que pode nos dizer sobre Fabio Lione enquanto vocalista da banda brasileira ANGRA?

Patrice: Fabio é um cantor fantástico, não importa em qual banda. Como artista, ele está certo em fazer aquilo que quiser e gostar. O ANGRA é uma grande banda e com ótimos músicos. O que posso ver após estes anos tocando com bandas diferentes é que Fabio está melhor que nunca. Estou fazendo a mesma coisa como baixista, tocando com bandas diferentes com estilos que vão do Blues ao Funk. É muito interessante juntar todas essas influências em cada nota que toco. Cada nova experiência musical é importante para um músico que sempre que ser melhor. Não existe fim na evolução como músico.


A 20th Anniversary Farewell Tour foi anunciada em novembro de 2016, trazendo os ex-membros do RHAPSODY. Quais são os planos da banda para o final da turnê, e consequentemente, quais os futuros planos da banda e seus?

Patrice: Nada está planejado para o RHAPSODY após a turnê europeia em março. Então, eu irei excursionar com outras bandas como tenho feito por muitos anos. Ainda estou estudando música, viajando pelo mundo para aprender sobre ritmos africanos, batidas cubanas, etc... Como músico, é importante para mim tocar coisas diferentes e aprender onde quer que seja. Isso não significa tocar linhas de baixo de Salsa em música Heavy Metal, é apenas como se sente tocando bateria para criar o melhor groove possível, e dar o melhor para a música. É fantástico ver a relação entre todos os estilos musicais, do Blues ao Rock ‘n’ Roll e ao Heavy Metal... Algumas vezes, você sente que é tudo o mesmo, com uma mudança no som das guitarras, por exemplo, J.


Quais são suas expectativas em relação ao show de São Paulo?

Patrice: Apenas um show no Brasil nessa turnê, então esperamos muita loucura nele. Brasileiros, venham e fiquem loucos conosco nesta última oportunidade de ver um show do RHAPSODY. Vamos lhes dar nosso melhor!





quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A Desgraça de Orellana contada pelo Metal extremo - Entrevista com o MIASTHENIA


Por Marcos “Big Daddy” Garcia


O Brasil é um centro de formação de ótimas bandas de Metal, em todas as vertentes do estilo. Mas ainda estamos engatinhando no que tange falar de nossa cultura, e muitas vezes, o brasileiro parece sentir vergonha de suas raízes. Mas existem aqueles que resistem, que sentem orgulho das raízes pagãs dessa terra manchada de sangue e ganância do colonizador, e que promovem um levante nativo. Entre eles, o pioneiro MIASTHENIA, que desde 1994 vem lutando no underground, e que agora, lança “Antípodas”, seu mais recente álbum, onde a temática central é a saga de Francisco de Orellana contada sob a perspectiva das guerreiras Icamiabas.

Aproveitando o lançamento do disco, tivemos a oportunidade de entrevistar Hécate, tecladista/vocalista do grupo, e mergulhar mais fundo no contexto lírico/musical de “Antípodas”.


BD: Salve, Hécate. Antes de tudo, gostaria de agradecer pela oportunidade de entrevistar você. Logo de início: como e quando teve contato com a saga de Francisco de Orellana, e como surgiu a ideia de abordar esse tema? Aliás, a clara impressão que tive é de que esse tema permeia todas as letras, criando um disco conceitual, estou certo?

Hécate: Eu agradeço pela sua entrevista e apoio ao MIASTHENIA. Sou Professora e Doutora em História e estudei as crônicas escritas pelos conquistadores/colonizadores sobre os ameríndios nos séculos XVI e XVII, então tive contato com essa obra quando já quando realizava o Mestrado (1999-2002), especialmente através dos estudos de minha ex-orientadora sobre a imagem das guerreiras amazonas na história. No álbum “Batalha Ritual” (2004) já tinha uma música (“Zôster”) sobre as amazonas, então eu já vinha também me preparando e lendo sobre isso. Mas como você bem observou, essa história de Orellana e das amazonas inspirou todo o álbum.


BD: Tanto no encarte do CD como em uma declaração em uma nota de imprensa, o significado da palavra “Antípodas” é explicado por vocês. Mas como cito acima, a luta das Icamiabas contra Orellana é um tema recorrente nas letras. Existe alguma ligação entre esses dois temas que poderia nos explicar?

Hécate: Sim, tudo está conectado, porque Antípodas se trata da forma como os seres (vistos como amazonas/icamiabas, canibais, cinocéfalos e iwaipanomas) confrontados na América representam o que há mais selvagem, pecaminoso, abominável e demoníaco no imaginário cristão dos conquistadores dos séculos XV e XVII. Todos esses seres foram representados iconograficamente nos antigos mapas onde a América figurava como território selvagem e inóspito, como uma Antípoda (oposição) do mundo cristão e civilizado. O álbum é uma crítica a essa visão cristã, de forma poética busca desvelar a vontade de poder e dominação daquilo que era diferente e inconcebível a uma sociedade colonial cristã que se tentava implantar na América.  


BD: Aliás, vamos direto e reto ao assunto: muitos fãs não fazem a mínima idéia de quem elas são, logo, que tal uma explicação sobre elas?

Hécate: As amazonas são mulheres guerreiras que aparecem em várias relatos desde a Grécia Antiga. Com a conquista da América, os europeus se depararam com inúmeras sociedades onde as mulheres poderiam atuar como guerreiras e lideranças tribais, e isso no imaginário dos conquistadores só poderia encontrar algum sentido e explicação nas suas antigas tradições de mulheres míticas e abomináveis que escapavam dos padrões de feminilidade frágil, submissa e que seriam inimigas dos homens e da moral. Logo associaram tais mulheres a essas que já povoavam o imaginário cristão/europeu há séculos. O problema é que nessa associação as mulheres indígenas foram convertidas em bruxas, feiticeiras e seres ainda mais pecaminosos, por se conectarem com um tipo de sociedade matriarcal que devia subverter a norma cristã, ou seja, constituindo-se em um pesadelo e ameaça. Não por acaso, a violência colonial/patriarcal usou de tais imagens para dominar e evangelizar os indígenas. As icamiabas seriam mulheres guerreiras que viviam sem a presença de homens em sua comunidade na região do rio Amazonas em 1542 (época da expedição de Orellana pelo grande rio), que, aliás, recebe esse nome por conta de uma série de relatos dos próprios indígenas que deviam tributos ou eram aliadas dessas mulheres. Orellana associou essas mulheres às antigas amazonas de relatos míticos gregos. Assim, na América os antigos mitos encontravam realidade e acabaram por servir aos interesses colonialistas de dominação, demonização e mitificação de qualquer tipo de sociedade onde as mulheres pudessem ser independentes e guerreiras. Desde então, negou-se a presença de mulheres guerreiras na história, já que associadas ao universo mítico, como seres inconcebíveis. Enfim, essa é a ótica cristã e patriarcal, mas outras histórias existem nas tradições ameríndias e são essas que nos inspiram. 


BD: Ao mesmo tempo, é interessante notar o uso da visão dessa parte da história por uma nova perspectiva, diferente da usada pelo padre Gaspar de Carvajal. Como essa ideia de mudar a visão do colonizador para as guerreiras surgiu?

Hécate: Basta mudar de perspectiva histórica e considerar as sociedades indígenas como sujeitos legítimos de produção de conhecimento histórico também, pois a história ensinada em nossas escolas é a história do ponto de vista cristã, colonial e europeu que tende a apagar qualquer diversidade e especialmente o poder e liberdade das mulheres. Por longo tempo eu estudei o imaginário cristão/colonial sobre a América e vi suas relações com o poder, por isso venho me dedicando também ao estudo das concepções dos próprios indígenas, porque elas nos trazem outras perspectivas históricas, ou seja, “histórias do possível” daquilo que foi apagado e tido como mítico/impossível nas narrativas históricas cristãs. Nós precisamos libertar o nosso passado, para libertar também nossas identidades no presente! 


Hécate (foto: Patty Freitas)
BD: Sobre os aspectos técnicos de “Antípodas”, percebe-se que o trabalho de Caio Cortonesi em termos de produção, mixagem e masterização deu uma evoluída em relação ao que ouvimos em “Legados do Inframundo”. Ou seja, a sonoridade da banda está crua como o estilo que fazem, mas limpa e bem definida para as melodias e arranjos da banda fiquem evidentes. Como foi trabalhar com Caio mais uma vez? E até onde ele interferiu em algum aspecto junto a vocês?

Hécate: É sempre uma grande honra e satisfação trabalhar com o Caio, porque ele respeita e entende muito bem nossa proposta temática e musical. Além disso, ele vem evoluindo cada vez mais enquanto técnico de áudio e isso se reflete em nossos álbuns. Em vários momentos ele também participou (nas vozes, escolha de efeitos e timbres) e acrescentou algumas ideias ao álbum, mas sempre com enorme sintonia conosco, assim confiamos bastante em seu trabalho e somos muito gratos a ele por todo esse trabalho e dedicação ao MIASTHENIA.  


BD: Além disso, seguindo uma tendência que “Legados do Inframundo” já mostrava, “Antípodas” tem canções mais curtas e é o disco de vocês com menor duração. Isso é algo intencional, veio do amadurecimento da banda ou teria outra origem que não sabemos?

Hécate: É intencional, porque com o tempo vamos mesmo amadurecendo e avaliando o que já fizemos. A intenção não era quantidade, mas sim qualidade.


BD: Fugindo um pouquinho da atualidade, “XVI” e “Batalha Ritual” foram relançados em um duplo CD este ano. Qual é a sensação de verem os dois discos do MIASTHENIA relançados? Isso mostra o interesse dos fãs mais jovens na banda, concordam?

Hécate: Sim, com certeza. A sensação foi de orgulho, porque é parte da nossa história, e ver isso concretizado nesse relançamento é muito importante para nossa existência, nos fortalece.


BD: Ainda pegando o gancho do CD duplo, existe a possibilidade de “Antípodas” ter lançamento em outros países?

Hécate: Acho que sim, o “Legados do Inframundo” foi relançado na França pela Drakkar com as letras traduzidas para o inglês no encarte. Mas, por enquanto estamos satisfeitos com a repercussão da edição nacional do “Antípodas”, quem sabe aparece uma oportunidade também de relançamento fora do Brasil.


BD: Voltando à temática de “Antípodas”, se sente a força do lado feminino surgindo naturalmente, não só pela temática centrada nas Icamiabas. Como esta característica foi se delineando, surgindo e amadurecendo no disco?

Hécate: Realmente essa temática surge de um desejo de trazer à tona o que tanto me motiva enquanto mulher em uma banda de metal a escrever letras de resistência indígena ao cristianismo. Reflete minhas perspectivas feministas, pagãs e anti-coloniais no campo da História, da política e das relações de gênero. É fruto de uma série de leituras históricas em busca de exemplos de mulheres indígenas na América pré-colombiana e colonial que escapavam dos padrões prescritos para as mulheres pela cristandade. A princípio pensei em fazer uma letra para cada uma destas personagens, e dai fui juntando textos e fontes, mas com o tempo fui me aprofundando também nos estudos decoloniais/pós-coloniais e me surgiram muitas reflexões e inspirações na abordagem desse tema, então o álbum não ficou exclusivamente restrito às amazonas, porque outros personagens também aparecem, endossando um contexto muito maior de negação da diferença confrontada na América.

 
BD: Uma pergunta um pouco triste e chata, mas que precisa ser posta na mesa: Hécate, é de conhecimento de muitos que você é Ph.D. em História, e mesmo com o resgate da cultura pagã Pré-Colombiana que está cada vez mais intenso no Brasil, vemos momentos lamentáveis na atualidade: censura à exposições de artes, a queima de bonecos da Filósofa Judith Butler por setores ultraconservadores (e pasme: aos gritos de “queimem a Filósofa”), a luta contra os direitos individuais das mulheres, da comunidade LGBTQ, dos indígenas e outras, etnias, ou seja, o recrudescimento que beira o TFP dos anos de chumbo da Ditadura Militar de 1964. O mais triste: ver muitos fãs de Metal se alinhando com esses valores. Qual a sua opinião, como música, professora, enfim, como pessoa culta diante de tanta sandice, de tanta intolerância?

Hécate: Eu me revolto também com tudo isso, porque reflete muita incoerência na cena Metal. Judith Butler para mim é uma grande referência na Filosofia, porque me baseio nas suas discussões sobre corpo e gênero em minhas pesquisas acadêmicas, o seu pensamento é subversivo e desconstrutivo e isso sim é o que me inspira a romper com tanto dogmatismo, fanatismo e ignorância em torno de ideias e concepções que tentam dominar o nosso ser e nossas relações sociais. O Metal deve libertar as pessoas, surgiu como forma de rebeldia e não deve ser usado como forma de opressão. Foi isso o que me atraiu para o Metal, mas hoje temos que lutar para manter essa significação. O MIASTHENIA sempre teve uma postura abertamente antinazista dentro do cenário Black Metal e isso, anos atrás, nos envolveu em muitas brigas e confusões, mas resistimos. Infelizmente o cenário do Metal está cada vez mais cheio de pessoas com ideias extremamente fundamentalistas e conservadoras: sexistas, homofóbicas e racistas. Boa parte destas pessoas não tem consciência do quanto seus valores em relação a essas questões se alinham com interesses de grupos, instituições e políticos cristãos que no fundo odeiam todos nós, só visam o poder e detestam a essência do Metal. Adoro a expressão “o Diabo é o pai do rock!”, então que fiquem longe dele aqueles que o temem!


Nygron (Foto: Ivanei)
BD: Vocês liberaram dois vídeos: um lyric vídeo para “Antípodas”, e um vídeo oficial para “Coniupuyaras”. Como estas canções foram escolhidas, e principalmente, como foi a produção e gravação de “Coniupuyaras”? E me permitam o elogio: o resultado final é fantástico!

Hécate: Obrigada. A escolha não foi aleatória, tudo foi pensado em termos de som e imagem e que era possível de se fazer, porque algumas músicas são mais cinematográficas que outras. A música “Coniupuyaras” teve sua letra pensada já em sintonia com as imagens. Foram meses idealizando o local, figurino e roteiro desse clipe, e ficamos muito satisfeitos com o resultado, o Caio fez excelente trabalho de roteiro, direção e edição, novamente ele captou muito bem nossa proposta. Gravamos o clipe aqui mesmo em Brasília, dentro de uma área de proteção ambiente há menos de dois km de nossa casa, em lugar fantástico para nossa proposta. Já o lyric vídeo de “Antípodas” foi escolhido e pensado também em termos de sua relação com imagens, a letra era perfeita para inclusão de antigos mapas e iconografias dos séculos XV e XVII que traduzem o imaginário cristão colonial sobre a América enquanto território selvagem, povoado por amazonas, canibais, cinocéfalos e iwaipanomas, dentro outros seres estranhos e aterradores.


BD: Voltando ao MIASTHENIA, e sobre shows? O show de 08/12 promete, mas existem possibilidades para outros estados, e mesmo fora do Brasil?

Hécate: Sim, não somos uma banda de longas turnês e muitos shows, porque temos nossas carreiras profissionais paralelas à banda. Mas na medida do possível, estamos planejando uma turnê e em breve teremos novidades para 2018.


BD: Bem, é isso. Agradeço demais pela entrevista, desejo todo sucesso do mundo à banda, e, por favor, deixe sua mensagem para o público.

Hécate: Eu agradeço pelo interesse e oportunidade de expor aqui um pouquinho de minhas concepções. Vida longa ao Metal Samsara! Para aqueles que ainda não conhecem nossa música, convido a navegar nos links logo abaixo. Em breve teremos disponível pela Mutilation a versão de “Antípodas” em LP (vinil). Força e honra sempre!


Contatos:

Site Oficial: http://miasthenia.com/
Twitter:
Instagram:
Assessoria: http://www.metalmedia.com.br/miasthenia/ (Metal Media)

E-mail: miasthenia.horda@gmail.com

Assista aos vídeos de “Coniupuyaras” e “Antípodas”.


terça-feira, 14 de novembro de 2017

Escuridão Sul-Americana que assombra o Metal – Entrevista com o MORCROF



Por Marcos “Big Daddy” Garcia


Se você conhece bem o cenário do Metal extremo nacional, o nome do MORCROF não lhe soará estranho. Um dos pioneiros da SWOBM (Second Wave of Black Metal) no Brasil, desde 1992 estão nessa luta. E apesar de tantos anos, com várias Demos, EPs, Singles, discos ao vivo e outros, o grupo possui apenas um álbum, “Machshevet Habriá (Myths and Conjectures of Creation)”. Mas em breve, o novo álbum estará disponível.

Aproveitando que a banda vive um bom momento após o lançamento do ao vivo “Live At the Brazilian Swamp” e se prepara para lançar mais um álbum, lá fomos nós ter uma conversa e saber sobre passado, presente e futuro deles, bem como conhecer um pouco mais dos planos para o ano que vem.


BD: Saudações. Antes de tudo, gostaria de agradecer pela oportunidade de entrevista-los. Como primeiro ponto, que tal nos contar um pouco da história da banda, desde 1992 até hoje?

Paullus: Big Daddy, nós que agradecemos pela oportunidade que nos oferece para falar um pouco sobre a MORCROF!

A banda já era um projeto em mente de Caecus Magice, nosso primeiro guitarrista, que tentava na época recrutar membros que pudessem fechar uma formação. Casualmente nos encontramos e ele me chamou para formatarmos a banda, a princípio, tendo como referência sonora as principais bandas de Death e Grind vigentes da época. Sentamos a primeira vez para compor em dezembro daquele mesmo ano, ponto de partida em que considero o início das atividades. Em 1993 fechamos o ano com a formação completa, 10 sons compostos que foram divulgados na reh 1994 “A Future Not So Far” e shows realizados. Logo após o lançamento da reh, Caecus Magice e Feralis saíram para formar a Eris Mestus, e seguimos com Beah Gênes Hajj-Ahriman e R’Matheus (com passagem meteórica) substituído por Pétros Nilo em 1995. Em 1996 lançamos a DT “Scientia Ab Mortuus” e fizemos alguns shows para promovê-la. Até 1998, compomos mais algumas músicas que foram gravadas na DT 1999, “Peragere Humum Et Semem Terrai Abditae” e na DT 2001 “Alesh”, estas registradas já com outras formações. Essas Demos tiveram boa repercussão e nos abriu caminho para lançarmos a compilação 2002 “Apeiron (Trinitas Primitiae Opus)” e o full length “Machshevet Habriá (Myths And Conjectures Of Creation)” em 2005. Fizemos bastantes shows no período em que culminou na abertura do Rotting Christ em sua segunda passagem pelo Brasil em 2006 e que resultou no DVD “Animo Signus Aeterno”. Os anos seguintes foram de altos e baixos: falta de grana, de estrutura, obrigações pessoais e o velho problema na formação nos acompanhou até 2011, quando fechamos um novo lineup que nos impulsionou a composições de novos sons que sairão no próximo álbum. Uma prévia disso pode ser conferido no Single 2015 “codex.gnosis.apokryphu.:.portae.es.solis.sursum.aquilonem” e no álbum “Live At The Brazilian Swamp”, gravado no memorável show de abertura do Varathron em 2015.  Hoje, estamos estabilizados com Eziel Kantele-Väinö, o insano; Bruno Brahms Kermanns; R’Bressan; Cleber Borges; Paullus Moura e R’Herton.


BD: Nesses 25 anos de vida do MORCROF, vemos que a discografia da banda é bem grande, com vários EPs, Demos, Singles e outros, mas apenas um álbum, “Machshevet Habriá (Myths and Conjectures of Creation)”. Por que só um Full? Aliás, dava para vocês fazerem mais uma compilação, pois material não falta.

Paullus: Depois de 2006, voltamos a ter problemas na formação e um acúmulo de problemas na esfera pessoal... Caminhamos muito pouco desde então! Não tivemos tempo para sentarmos e compormos de modo mais incisivo e desanimamos um pouco com a dificuldade em encontrarmos novos integrantes. A coisa começou a mudar a partir de 2011 com a entrada de R’Herton na bateria e de Agnaldo Dead Poet nos vocais, só a partir de então, com ensaios regulares, pudemos colocar as novas composições em dia, iniciarmos novas gravações e retornarmos aos palcos. Sobre fazermos uma compilação com alguns outros materiais, nós nunca pensamos nessa possibilidade. (Nota do entrevistador: selos que lerem esta entrevista, hora de apostar na banda!)


BD: Mesmo sendo de 12 anos atrás, “Machshevet Habriá (Myths and Conjectures of Creation)” deu a vocês a projeção que pretendiam? Ele chegou a abrir portas?

Paullus: Acho que sim. Esse álbum reverberou bem no Brasil e no exterior e ainda hoje muitos headbangers nos contatam à procura de “Machshevet Habriá...”! As portas se abriram, mas não tivemos condições, eficiência ou competência para aproveitarmos aquele bom momento...


BD: Mais uma sobre o passado: olhando pela internet, percebe-se que a formação da banda sempre sofre alterações. A que atribuem esse fato? Às dificuldades de se fazer Metal no Brasil, um pouco de responsabilidade dos ex-membros, uma combinação de ambos ou outros fatores?

Paullus: Foi uma combinação de diversos fatores com certeza; de tudo que você possa imaginar... Imaturidade, inexperiência, desinteresse e saída de membros, mulher, filhos, trampo, estudo, grana, enfim... Por incrível que pareça, as “dificuldades de fazer Metal no Brasil” nem cogitamos pois é uma realidade intrínseca.


BD: Recentemente, vocês lançaram o ao vivo “Live At the Brazilian Swamp”, que foi gravado no show de abertura do Varathron em SP. Qual a sensação de tocar com uma banda que, de certa forma, é uma influência para o MORCROF? E qual a intenção de lançar o ao vivo?

Paullus: A sensação? Foi como trepar com uma gostosa e gozar litros nela várias vezes sem tirar de dentro! Sobre o live, a intenção é mostrar que, uma coisa é se gravar músicas em estúdio com milhões de recursos técnicos que hoje temos em mãos, tudo sai lindo, nítido, perfeito, como a banda quer que soe; e outra coisa é executar os mesmos sons ao vivo organicamente, com improvisos, adrenalina, público urrando, crueza... são versões oferecidas de uma mesma música, a cada vez que tocamos ao vivo torna-se inédito pois tudo pode acontecer. Penso que registros “lives” não serve para comparar com trabalhos de estúdio – com o Single por exemplo, mas imergir na essência que a banda mostra on stage...


BD: Ainda sobre “Live At the Brazilian Swamp”, como tem sido a recepção dele por parte do público e da crítica especializada em Metal?

Paullus: Por incrível que pareça, quem escutou “Live At the Brazilian Swamp” entendeu a proposta... Claro, vamos lá: são áudios masterizados tirado de uma filmadora frontal ao palco e que captou tudo quanto foi ruído em sua volta, longe da perfeição... Mas tem a essência daquela noite e é isso que queríamos passar! Encaramos bem qualquer crítica, tomando cuidado tanto com as negativas quanto com as positivas...


BD: O último Single da banda, “Codex Gnosis Apokryphv: Porta Ex Solis Svrsvm Aqvilonem”, precedeu o ao vivo em dois anos. Mas em termos de projeção, podemos dizer que ele atingiu o objetivo, ou seja, mostrar não só que o MORCROF está vivo, mas chegar até novos fãs?

Paullus: O Single está cumprindo com esse objetivo, causando boa impressão e surpresa aos velhos irmãos que nos acompanham desde o início, sobretudo pela inserção dos vocais limpos, quanto sendo bem aderido também aqueles que ainda não conheciam a banda. E, como bem mencionado na pergunta e parafraseando Steve McQueen em “Papillon”, precisávamos lançar algo que dissesse: “Hey, ainda estamos vivos, desgraçados!”


BD: Hora de falar do futuro: a banda parece estar preparando mais um álbum para breve, certo? Se sim, o que poderiam nos adiantar em termos de informação (nome, tracklist, etc)? E há uma previsão para o lançamento dele?

Paullus: Sim, estamos na reta final da produção do novo álbum, que trará o título “.:.codex.gnosis.apokryphu.:.arcano.verba.revelatio.:.” e apresentarão, dito em primeira mão, as faixas: “invocatio spiritus antiquis”; “in monolitus ex auorum spiritus mundus”; “preconceptual genesis circularis elementarum existentiam”;  “preludium.:. apretit portae”; “portae ex solis sursum aquilonem”; “existentia imperfecta es”; “ad infernum exilio meam”; “gratiam aeon sapientia mundi”. O álbum trará algo que sempre quisemos fazer: cantar em latim na íntegra. Embora estejamos próximo da conclusão dos áudios, infelizmente ainda não temos a previsão exata do lançamento...


BD: Aliás, em termos líricos, algo mudou dos tempos da Demo “A Future Not So Far” até hoje? E quais são os temas centrais das letras? Alguma mensagem aos fãs?

Paullus: Houve um evidente amadurecimento de ideias, mas o cerne continua sendo o mesmo: o existencialismo humano. Questionamento sobre vida, morte, existência, sempre fez parte de nossas conversas e as letras justificaram esses pensamentos seja em “its explanation is your god” de 1993 ou em “existentia imperfecta es” escrita em 2008.


BD: Vocês são de uma geração que viu surgir no Brasil nomes como MIASTHENIA, SONGE D’ENFER, OCULTAN, MALKUTH, entre tantos outros nomes que são pináculos do Black Metal brasileiro. Olhando hoje para o passado, existe aquela impressão de que poderiam ter feito algo diferente do que fizeram? Existem arrependimentos?

Paullus: Não existem arrependimentos... Mesmo! Fizemos o melhor que achávamos dentro do contexto que vivíamos a cada época. Seria fácil hoje com mais de 40 anos olhar para traz e pensar que poderíamos ter feito algo diferente quando na verdade não, justamente porque não possuíamos a vivência e experiência que temos hoje.


BD: O Metal nacional vive um momento de cisão: de um lado, vemos a censura de exposições de arte, pessoas queimando bonecos de filósofos aos gritos de “queimem a bruxa”, e muitos bangers se alinhavam com esse cenário ultraconservador, inclusive dando suporte ideológico a deputados da dita bancada evangélica. Como vocês enxergam essas situações? Não dá um pouco de nostalgia em relação à época em que mandávamos políticos se foderem e éramos apegados uns aos outros fraternalmente?

Paullus: Vou tentar ser muito claro nesta questão, não somente porque ela traz polêmicas, mas também porque dentro da banda temos visões distintas sobre ideologias políticas que ora nos aproxima, ora nos distancia entre argumentos e justificativas. Então, o que vou expor aqui é algo meramente pessoal e não uma posição da banda como ferramenta artística e pontual.

Antes de tudo, admiro pessoas que procuram se posicionar, errado ou certo sob determinada perspectiva, o importante é se posicionar; em segundo, as pessoas devem ter o peito aberto para debater as diferenças não como um objeto concretado, mas de possibilidades, no exercício de empatia, sabendo ouvir e entender, sabendo falar e ser compreendido. Ainda não chegamos nesse nível. O brasileiro, antes alheio as questões ideológicas política em sua maioria, e aqui me refiro aos anos 80 e 90, hoje conversam sobre decisões do STF ou das leis que estão sendo encaminhadas no Congresso e no Senado... ou no seu Estado ou município. Esta é a impressão positiva que tenho, mas que se desdobra em equívocos, pois não está muito claro a muitos de nós as conexões ou relações que transitam de um extremo ao outro.

Precisamos pesar as consequências daquilo que anunciamos como “sociedade perfeita” sem que isso seja um tiro no pé, sem que nivelemos as situações por baixo e de modo superficial... Isso é nada fácil! Devemos enfrentar a situação com a política que fazemos no dia a dia e, portanto, tomar conhecimento do homem como ser social. Precisamos limpar essa água turva que impede enxergarmos com clareza alguns conceitos... Sei lá, vou usar uma afirmação turvada recente: “nazismo é de esquerda”... Estão confundindo regimes totalitários com o germe dessas ideologias... Misturando conservadores e progressistas com moderados numa discussão convergente entre extrema-esquerda e extrema direita... Nesse sentido, tá tudo uma bosta porque o posicionamento político citado no início desta resposta passa a ser um engodo à própria pessoa que profere suas ideias, a análise é rasa e, influenciados pelos extremos ideológicos, acabam por se satisfazer com uma retórica banal de qualquer político e, pior ainda, o adotam como se fosse seu animal de estimação...

Outro dia li uma matéria que trazia na manchete: “Metal sempre foi conservador”... Claro, pra mim uma boa provocação... Metal nunca foi conservador, tá na sua genética, o que acontece são jovens “libertários” dos anos 80 se vendo hoje entregues ao sistema, não estou condenando, só constatando. Hoje em dia o Metal está se ratificando como uma arte meramente estética e corrompida pela indústria cultural, aceitável, maleável com tudo aquilo de que foi adepto na origem: Sublevado, rebelde, transgressor, libertário, contestador, repulsivo. O “headbanger” que lutava por liberdade outrora passou a almejar o status em que alcançou e, dentro desta perspectiva, ele tem suas razões. Bom... é um tema muito amplo... difícil pontuar tudo que leva ao que estamos vivendo no momento. O que sei é de minha posição: Libertário e progressista. Libertário porque nenhum homem ou instituição tem valor moral para subjugar e explorar outro homem (mas fazemos porque somos hipocrisias!)... E progressista porque precisamos abrir a mente para entender as novas demandas de valores que a sociedade necessita.


BD: E em termos de shows, como as coisas estão? Existem propostas para alguns shows fora de SP, e mesmo para os outros países da América do Sul?

Paullus: Com a entrada do Bruno e do Cleber, tivemos que ganhar um fôlego para que a atual formação ensaiasse os sons que serão apresentados ao vivo. Fizemos um show “piloto” em 15 de outubro que nos serviu experiência... E temos mais 2 festivais este ano. Para 2018, ainda vamos nos reunir para organizar como serão os ensaios, suas proposições, shows, composição... Novamente, com 6 integrantes, tentaremos equacionar os dias e horários que seja bom para todos e, feito isso, elaborar a agenda. Não há nenhuma proposta até o momento para show no ano que vem...


BD: É isso. Mais uma vez, agradeço demais pela entrevista, e por favor, deixem sua mensagem aos seus fãs e leitores do Metal Samsara.

Paullus: Nós que agradecemos, mais uma vez, por todo seu suporte, dedicação e atitude por manter um importante veículo de informação underground como o Metal Samsara. Nossos eternos agradecimentos a você e a todos que se interessaram em ler esta entrevista e conhecer um pouco mais sobre a MORCROF.

Ouça o disco ao vivo “Live At The Brazilian Swamp”.


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Os acordes do inferno vindos do Nordeste – Entrevista com o ELIZABETHAN WALPURGA


Por Marcos “Big Daddy” Garcia


Sempre quando se fala no Metal da região Nordeste do Brasil, a primeira ideia que nos vem à mente é justamente a fertilidade de lá em termos de bandas. Muitos nomes que vêm de lá mostram trabalhos excelentes, e da cidade de “Hellcife”, em Pernambuco, estado que já deu ao mundo bandas como HATE EMBRACE, STONEX, CANGAÇO, MALKUTH, entre tantos outros, vem o quinteto ELIZABETHAN WALPURGA.

Fundindo Metal tradicional, Black Metal com uma pitada de Classic Rock, o grupo fez de “Walpurgisnacht” uma aula de inovação dentro do Metal nacional.

E lá fomos nós aproveitar o bom momento para falar com a banda, na figura de seu baixista Renato Matos, e saber do passado, das novidades atuais e planos futuros do quinteto.
  


BD: Saudações! Antes de tudo, agradeço pela oportunidade, e queria começar a entrevista pedindo que nos conte um pouco da história da banda. E principalmente, de onde veio a ideia de usarem o nome ELIZABETHAN WALPURGA?

Renato Matos: Saudações para todos que acompanham o Metal Samsara e obrigado a você, Marcão “Big Daddy” Garcia, pela oportunidade e espaço para nossa banda.

A banda foi formada por mim, Breno e Erick Lira em 1994 com a proposta inicial de fazer um death metal melódico. Somos amigos de infância e nos conhecemos em 1982.

Em 1994 eu já era baixista da banda Infected, que na época estava fazendo um Death Metal brutal na linha do Morbid Angel. Quando fiz as bases, do que depois veio a ser a música “Vampyre”, tive certeza de que tinha de ser compositor e ao mesmo tempo de que o que eu queria compor não se encaixava no Infected e em nenhuma outra banda que eu já tinha ouvido naquela época, então mostrei aos irmãos Lira as bases que tinha feito. Eles gostaram muito do que eu mostrei, e assim começamos a banda. No início, eu ia passar a noite e fins de semana na casa deles, foi onde tudo começou, eles nessa época já tinham se mudado de nossa vizinhança e lá íamos nós na base de um litro de Rum para 1.250 ml de Coca-Cola e duas caçambas de gelo! Erick tomava apenas a primeira dose conosco, eu ia até a metade da garrafa com Breno, acabava a coca e a outra metade amanhecia seca, rsrsrsrs. Amanhecíamos com as músicas gravadas numa fita K7, mas nesse processo, mudamos as músicas várias e várias vezes nessa época, apesar de que as duas últimas que compomos foram feitas quase que diretamente sem tantas mudanças e complementações. Chamamos Murilo Nóbrega e Rogério Mendes para compor conosco a primeira formação. Eles eram membros da banda Decomposed God e na época, eu estava muito próximo a todos do Decomposed God, ia aos ensaios, era um verdadeiro grude, mas por inconsistências de horário, eles deixaram a banda ainda bem no começo depois de alguns ensaios, nem tínhamos letras feitas e o nome provisório da banda era Eccumenical Damnation.

Convidamos Belchior de Melo para tocar bateria, e ele trouxe Leonardo Mal’lak, que já tocava com ele na banda de Black Metal Darkness Emperor.

Leo trouxe a ideia de escrever sobre vampirismo mesclando com o que ele lia na época, livros de Anton LaVey e Aleister Crowley e uma Bíblia do Vampirismo, não lembro o autor dessa última referência. Depois, ele acompanhou o início da construção filosófica que Hellhammer criou e Mal’lak sempre nos falava sobre o Movimento Luciferiano ser de uma magnitude tamanha que encanta qualquer inquietude espiritual, e daí nasceu o interesse em outras religiões e outras culturas. O som encaixou e começamos a ensaiar com mais frequência, mas demoramos muito a montar um repertorio. Acho que o fato de naquela época 3 membros da banda, inclusive eu, tocarem em 2 ou 3 outras bandas ao mesmo tempo fez com que o processo fosse lento mesmo. A partir da gravação da primeira Demo Tape intitulada “... The Darkness... The Wrapping Tranquillity …” em 1997 foi as atividades na banda ficaram mais intensas, criamos mais músicas e realizamos nosso primeiro show apenas em 1999 no festival Blizzard of Rock. Depois desse primeiro show, chamamos a atenção local e fomos convidados por João Marinho da Blackout Discos de Recife para abrirmos o segundo show da história do Krisiun em Pernambuco em 2000. Ganhamos mais notoriedade com esse show e ficamos conhecidos em várias cidades do nordeste, pois quem tava no show repercutiu bastante ao voltarem pra suas cidades, principalmente pela qualidade impressionante e técnica de Breno e Erick, que na época eram sem dúvida uma espécie muito rara no Metal. A maioria dos músicos não sabia tocar tão bem, nem estudavam música a sério, eu era um deles, mas tinham exceções, claro. Em 2001 tentamos abrir para algumas bandas, mas decidimos não tocar na hora dos shows, pois a produção tinha nos prometido boas condições de show. Acabou que os headlines não nos deixaram passar o som nem tocar na bateria antes deles tocarem. Isso seria umas 2, 3 da manhã, ainda pra passar o som pra depois tocar lá pras 4 da manhã! Não topamos. Se não tivermos condições de mostrarmos nosso som com qualidade, preferimos não tocar. Tocar é uma consequência sob o aspecto de nossa filosofia. Nosso terceiro e último show dessa fase foi em 2002. Abrimos pro Monstrosity e foi nosso melhor show dessa fase! Eu já estava planejando migrar pros EUA e quando isso aconteceu no meio do ano, a banda acabou, pois nem Breno nem Erick quiseram continuar a banda sem os 3 na banda.

Elizabethan Walpurga (Walpurga da era Elizabetana) é a celebração da noite de Walpurga (Walpurgis, Walburga, Waelbyrga), a Walpurgisnacht dos tempos medievais, o Sabá da renovação. É a noite da libertação, a união das sombras com o fogo ritualístico pagão. As portas do submundo estariam abertas nesta ocasião de festejos para atrair energias renovadoras, purificadoras, estimulantes. A Walpurgisnacht medieval foi caracterizada como “a noite das bruxas”!


BD: Houve um hiato entre 2002 e 2015, quando voltaram à ativa. Renato, sabemos que foi por ter ido viver um tempo nos Estados Unidos, mas na época foi o fim ou você tinha a ideia de um dia voltar e retomar os trabalhos do ELIZABETHAN WALPURGA?

Renato: Na época, todos pensaram que era o fim mesmo, mas eu sempre comentava que não achava que iriamos acabar daquela forma. Com alguns amigos fora da banda, sem registrarmos as 9 músicas que criamos naquela fase, sendo que a última música não chegamos a tocar em estúdio e ainda não tem letra até hoje.

Desde que voltei dos EUA em 2007 que eu procurava uma chance de voltarmos, mas o momento de cada um de nós não nos permitia nenhuma forma de nos planejar.

Erick estava morando no Rio de Janeiro, Leonardo em Natal, e Breno tocando profissionalmente com 1349 bandas diferentes do forró ao jazz, do frevo a MPB, e tinha outros trabalhos autorais como na banda Treminhão, e eu tinha de recomeçar minha vida, mas sempre falava com Breno que se voltássemos teríamos êxito, pois até aquele momento eu não tinha escutado nenhuma banda parecida com o que fazíamos. Breno sempre falava que só voltaria se fosse para gravar as músicas, mas não lembrávamos mais das músicas que não tínhamos registrado, lembrávamos de algumas bases, mas não das músicas por completo!

Então em 2014 recebemos um convite do Sávio Diomedes, nosso velho amigo Hellhammer da banda Lord Blasphemate para lançarmos um Split com nossas Demos de grande sucesso, e impacto na cena Metal do nordeste nos anos 90. Ficamos muito honrados, mas a qualidade sonora da demo era péssima. Quase não conseguíamos ouvir as linhas de baixo. Foi então que reequalizamos a Demo com nosso amigo Pierre Leite, que veio a compor depois comigo e Nenel Lucena a introdução “Exordium” do CD “Walpurgisnacht”, e mandamos pro Sávio que tinha em mente lançar o selo dele chamado de Ordo Draconian Black Label, o que ocorreu tempos depois.

Entre a entrega do material e o lançamento demorou mais de um ano e um dia no começo de 2015, eu fui à casa de Breno com o irmão mais novo dele, Victor, para procurarmos as fitas que costumávamos gravar nos ensaios em um micro system.

Fita por fita, fomos tocando-as e bebendo, tocando e bebendo, e lá pras tantas conseguimos achar uma única no meio de umas 50 fitas com uns ensaios em que registramos o momento em que estávamos pegando as músicas entre 98/99, cometendo alguns erros ainda, tocando as músicas de forma diferente de como as tocamos, ainda sem letras. Tínhamos várias k7 dessas, de vários momentos da banda, inclusive com Beto Santos e depois com Osvaldo na bateria. Mas dentre as 50 k7 que Breno guardava de várias gravações de projetos em que ele tocava, apenas essa era da ELIZABETHAN WALPURGA, então supomos que as outras fitas se perderam no tempo e nas mudanças de casa, mas achamos as músicas e isso foi muito empolgante. Na hora já entramos em contato com Erick e com Leo sobre termos achado 4 das 5 músicas perdidas. Os dois toparam na hora e já ficamos pensando em quem seria convidado para tocar bateria.


BD: Bem, em 2015, vocês retomaram a banda, e já começaram mandando ver em shows, inclusive com a abertura para o grupo americano ABSU. Como foi a acolhida do público após o retorno? O saldo tem sido positivo?

Renato: Sim, voltamos em 2015 apenas para gravar o CD “Walpurgisnacht”, mas só ensaiamos às vésperas do show que fizemos em setembro de 2016, o show de 10 anos da banda Subinfected, e logo depois fomos chamados para tocar no festival Visions of Rock, neste evento do ABSU. A receptividade foi excelente e muito além das nossas expectativas.
Tem um vídeo do primeiro show no Youtube no Burburinho Bar e o Visions of Rock fez um DVD desse show e oportunamente iremos disponibilizar esse material em nossa pagina do Facebook e Youtube também.

Em 2017, fizemos apenas 2 shows. O de lançamento do nosso CD pela Shinigami Records em abril, também no Burburinho, e logo depois um show fantástico em Caruaru com Alejandro Flores substituindo Breno. Alejandro é um excelente guitarrista, de bandas como Inner Demons Rise, Decomposed God nos anos 90... Mas por causa da volta de Breno para finalizar seu mestrado em música em Portugal, e devido a compromissos profissionais de Erick em cursos de reciclagens que teve de fazer fora de Recife, não pudemos aceitar alguns shows desde então. Voltaremos sem dúvidas a fazer shows novamente em 2018, provavelmente a partir de março, abril e planejamos lançar algumas músicas inéditas, principalmente a música remanescente dessa primeira fase, uma música feita por Erick em 2002, que ele reorganizou agora a pouco tempo.


BD: Falando um pouco do disco. “Walpurgisnacht” mostra uma banda que ousa mostrar um trabalho diferente do que vemos no Brasil, essa mistura de Black Metal com melodias vindas do Metal tradicional. Como os fãs têm encarado essa musicalidade híbrida?

Renato: Recebemos quase sempre críticas muito positivas em relação a essa diversidade presente na nossa música, e de como as musicas são diferentes das coisas que os fãs escutam em outras bandas. Já vimos alguns comentários contrários sobre nossa música também, mas não nos incomodamos quando temos uma crítica negativa, afinal de contas, cada um tem o direito de gostar do que quiser gostar! Achamos tão normal quando alguém ama nosso som ou quando odeia, e não julgamos ninguém por isso. Tenho grandes amigos que não gostam da banda e fazem suas críticas, mas você não gostar da minha banda não te faz meu inimigo, nem você gostar te faz meu amigo!

Para nós essa mistura de sonoridade, de musicalidade é muito natural, pois sempre fomos assim durante nossas vidas.

Gostamos de Beatles desde criança e escutávamos bem antes de começarmos a escutar Heavy Metal. Todas as noites nós descíamos dos nossos apartamentos para ficar tocando, era uma grande mistura, mas isso exemplifica que nunca separamos a música por estilos ou por rótulos e sim pelo que nos agrada e pelo que não nos agrada.

Fica muito difícil exibir todas as camadas de todos os diferentes sons de que sou feito e de que me apropriei e, de tudo que vem de influência, antes de escutar Rock Progressivo, antes de escutar Heavy Metal, antes de escutar Rock e de antes de escutar coisas modernas “lá da minha modernagem”. Discos belíssimos que escutei na infância como os 3 primeiros álbuns do Quinteto Violado (“Quinteto Violado” 1972, “Berra Boi” de 1973 e “Feira” 1974) ou os discos da Banda de Pau e Corda daqui de Recife também dos anos 70!!! Depois de digerir esses discos do Quinteto Violado ainda criança, eu já me achava pronto para ouvir qualquer coisa com apenas 7 anos. Foram as melhores definições de como de fazer arranjos para uma música que eu tive e só depois de muitos anos, quando eu conheci coisas mais complexas foi que as coisas começaram a serem substituídas na forma de pensar essas estruturas musicais. Algo de muito além do tempo e de escutar aquelas músicas em 1977, 1978 forjaram a minha percepção de música e de ocupação de espaços na música e que podemos ocupar através de uma ilusão sensorial de viajar mesmo por esses acordes e arranjos, que nos transportam para a irrealidade da vida e isso é o que eu chamo de perfeição! E nada mais que eu diga a partir de agora vai definir melhor o que é minha música para mim mesmo!

Então não é só escutar e reconhecer influências como Iron Maiden ou Mercyful Fate, são camadas de músicas das mais diversas incorporadas, porque somos 5 e trazemos muita musicalidade das nossas vidas. Fazemos música principalmente para satisfazer a nós mesmos!


BD: Sobre o repertório de “Walpurgisnacht”, quantas e quais são as músicas antigas, de antes de pararem, e quais são as novas? E quais as mudanças que sentiram entre as versões mais antigas e as novas, e as diferenças entre o material antigo e as novas composições?

Renato: Com exceção da intro “Exordium”, todas as músicas são composições da primeira fase da banda. Alguns arranjos com certeza mudamos, acrescentamos ou cortamos alguma coisa de linha de baixo ou uma frase de guitarra, talvez, mas quem nos conhecia na época relata que se lembra das músicas claramente, mesmo depois de tantos anos, quando escuta “Walpurgisnacht” hoje. Queríamos que este capítulo estivesse presente na nossa biografia de forma a enaltecer todo aquele momento, que representa quem éramos quando compusemos essas músicas. Mas hoje em dia tocamos mais do que tocávamos naquela época, especialmente Breno Lira e as condições de gravações são infinitamente melhores e mais baratas. Queríamos dar as músicas o devido valor que nós sentimos por elas e “Walpurgisnacht” nos representa e temos muito orgulho do que conseguimos obter, independente de qualquer crítica que já recebemos ou venhamos a receber. A principal mudança está no fato de que não é o mesmo baterista e na minha concepção uma banda qualquer, não apenas a EW, muda bastante quando o vocalista ou o baterista muda, mas isso não foi um problema. Arthur é nosso quinto baterista e estamos bastante satisfeitos com a performance dele no CD, principalmente por ter gravado tudo em umas 7 horas de estúdio, parando apenas pra comer uma pizza, ele é surpreendente!

Outra diferença é o fato de que na época as letras não foram bem traduzidas. Por isso foi feita uma nova tradução das letras originais em português e com isso algumas partes mudaram drasticamente. Como Mal’lak não teve tempo de estudar essas mudanças, ele teve de cantar na hora da gravação, pra logo em seguida voltar para Natal sem chance de vir novamente ao Recife em alguns meses, pois a filha mais nova dele havia nascido ou estava prestes a nascer. E ficou perfeito a vocalização e o timbre de voz que ele conseguiu colocar naquele dia foi melhor do que esperávamos, mas depois dele gravar, senti alguns vazios causados por essas mudanças nas letras das músicas, talvez. Então acrescentei meus backing vocais nas músicas para dar mais consistência, mais dramaticidade. Antes eu só cantava num trecho de “Walpurgisnacht” e dava alguns gritos vampirescos “Udo Dirkschneidianos”!!! Mudou a forma como tocamos, pois hoje tocamos as músicas de forma mais cadenciada e nos sentimos bem executando as músicas da forma como tocamos hoje. Sempre escutamos referências de que ao vivo parecemos iguais como tocamos no CD, mas não é verdade, pois no disco colocamos até 4 guitarras fazendo coisas diferentes e em vários trechos, mas a forma como Breno e Erick constroem os acordes, os possibilitam preencher espaços. Quando escuto Breno tocar, penso que tem ali dois guitarristas tocando ao mesmo tempo, porque ele sempre coloca terças, quintas e por ai vamos dando mais textura ao nosso som.

Estamos compondo novas músicas. Fiz 5 músicas e Erick fez uma, além de bases soltas que temos e a música de Erick remanescente da primeira fase. Arthur também está compondo alguma coisa, ele tem uma guitarra de 8 cordas! Animal!!!

Estamos mais maduros e isto está presente na forma que compomos hoje.

Eu diria que a maior diferença entre as músicas antigas que gravamos em Walpurgisnacht” e as que estamos fazendo agora é que as novas estão chegando naturalmente mais complexas e com novas sonoridades presentes e isso é muito instigante! Escrevi 3 letras inteiras e Mal’lak também está escrevendo. Não estamos mais escrevendo exclusivamente sobre vampirismo, pois outros temas nos atraem. Estamos lendo autores como E. A. Poe, H. P. Lovecraft, Von Däniken, Sávio Diomedes e mais profundamente sobre Luciferianismo, então acho que refletiremos mudanças neste sentido. Estou com vontade de cantar mais com vocais limpos e iremos testar algumas coisas quando entrarmos em estúdio para ensaiar as novas músicas.


BD: Existem alguns convidados no CD, que são Nenel Lucena, Gustavo Coimbra e Rogério Mendes nos backing vocals. Como foi que tiveram a ideia de chama-los para participarem?

Renato: Bem, desde o planejamento eu já tinha convidado Rogério e Gustavo para participarem da gravação do CD. Na verdade, a única coisa que eu tinha em mente eram os gritos que queria colocar em “Walpurgisnacht”, mas no dia em que foram ao estúdio tivemos essa ideia com Gustavo, que tem um dos melhores vocais que eu já ouvi em minha vida (fica a dica banda ARKTUS) acabou gravando em “The Elizabethan Dark Moon”, com uma ajuda fundamental de Nenel Lucena para praticamente arranjar os vocais dele. Em “Walpurgisnacht”, eu quis colocar uma diferença potencial entre o grave de Rogério com o rasgado enfurecido de Mal’lak e o contraste ficou exatamente como eu queria.

Foi muito bacana tê-los conosco no estúdio, especialmente Rogério que foi nosso primeiro vocalista. Mas Gustavo Coimbra é um grande amigo meu, um irmão que levarei pro resto da minha vida e ele canta muito \m/. Gostaria que todos cantassem na banda, acho que eu exploraria bem vários vocais ativos ao vivo, rsrsrsrsrs.

Fui fazendo alguns backings, e ainda senti falta de uma coisa mais encorpada na minha voz, pois é muito estranho ouvir a própria voz, foi então que tive a ideia de fazer várias camadas com ela, como em “Infernorium”: … I feel things that no human heart can feel” eu faço 4 vozes diferentes, e fiz isso em vários momentos do CD, as vezes fazendo 3 vozes uma em cima da outra, 4 ou 5 e nem sempre eu quis sincronizar essas vozes, pois tem momentos em que queria enfatizar que eram como se fossem 2 ou 3 seres proclamando ao mesmo tempo. Com a exceção de “Exordium” onde colocamos efeitos de estúdio, pois queria dar outra dimensão, já que se trata de um ritual para ressuscitar um Lord vampiro. Gostei muito dessa forma de colocar meus backings nas músicas. Não tem nenhum efeito de estúdio na voz, são várias camadas de minha voz. Teve um dia em que gravei rouco e isso deu uma diferença, pelo menos na minha audição desses vocais.

Mas nos próximos trabalhos pretendo fazer todos os backings vocals.


BD: Se por um lado as músicas possuem um diferencial e tanto no hibridismo de Metal extremo com “insight” melódico, as letras parecem acompanhar, e mesmo focando temas mais obscuros, fogem do satanismo barato. Estou certo? Quais os conceitos e qual a mensagem que desejam passar com suas letras?

Renato: As letras tratam do crescimento pessoal de cada indivíduo, tornando o ser humano o centro do universo e o líder de seu destino. O próprio ser que o definirá como vencedor diante das hipocrisias da sociedade. As nossas mensagens batem de frente com alguns valores deturpados que nos são impostos desde o nascimento; a temática de nossas letras passa por um arcabouço social humanista, política-comportamental e, principalmente, uma crítica forte às crenças escravizantes que dominam o mundo há séculos sobre o “manto sagrado” politico, corrupto e opressor das igrejas cristãs no mundo, que valorizam a obediência cega, em detrimento à natureza humana.

Mas vamos lá, não somos fundamentalistas quanto a religiões como um todo, não temos uma identidade única quanto a religião e cada um é cada um. Ateu, luciferiano, budista, satanista? Não damos muita importância a essa particularidade de cada um de nós na banda.

Particularmente, acredito em várias coisas. Em minha opinião, a crença é como costurar panos velhos de vários pedações, tamanhos e cores, que a mim me parecem serem logicamente sensatos em acreditar. Não acredito que uma única pessoa dizendo que é dono da luz ou das trevas, nem que organizações humanas possam ter um pensamento correto e que resuma tudo numa verdade só.

Um Luciferianista se espelha em entidades para sua filosofia, suas ações e exercícios de pensar, desenvolvimento, progressão, ser você mesmo e melhor a cada dia. Devemos conhecer ambos, as Luzes e as Trevas em seu caminho, nunca se prendendo a nada e sendo livre para fazer o que quiser. O Luciferianismo é uma filosofia que busca a “Sabedoria da Luz”, pode-se assim dizer.

Acho muitos aspectos interessantes em religiões orientais como no budismo ou no hinduísmo, mas não sou adepto a elas. Não acredito em nada que prenda o homem ou o pensamento dele. Acredito na liberdade individual de cada um, mas infelizmente as pessoas não respeitão o que não conhecem e passamos por momentos muito equivocados de todos os lados.

Bom, abordamos o tema vampirismo e sei que Mal’lak foi muito influenciado por Anton LaVey e Aleister Crowley, mas o real sentido que resume bem nossa mensagem, em minha opinião, é liberdade! Seja livre e pense você mesmo sobre o que vai ler em nossas letras, faça suas reflexões! Acho que esse é sempre o melhor caminho, tirar minhas próprias conclusões e na maioria das vezes não estou nem a fim de mudar o pensamento de ninguém, eu já tenho coisas demais para pensar na vida. Trabalho, aprimoramento profissional, eu tenho uma vida normal, sou pai de uma menina de 3 anos que amo e aprendo bastante com ela. Acho que tem muita gente por aí precisando amadurecer, não só na idade, porque na real, isso nem sempre nos define, mas amadurecer suas ideias, refletir consigo mesmo, buscar seu autoconhecimento, enfim...

Você pode imaginar um vídeo passando em sua imaginação, um filme, um passeio pelas florestas da Eslováquia, ou pelo Rio Danúbio, imaginar uma história de terror ou uma história de amor, brutalidade melódica ou extremismo melancólico, e isso tudo é em nome do que nós acreditamos, das ligações que temos com o sobrenatural, com o escuro e com a escuridão, e nós gostamos da escuridão mais do que da luz e assim vai...!

Somos canalizadores de energia e energia é o que há de mais fundamental e mais poderoso no universo! Consigo receber e ceder minha energia e isso também é uma forma de vampirismo num conceito mais moderno, então, somos apenas a fantasia de muitas almas? Há mais palavras ao redor de nós mesmos e entre nós do que podemos enxergar, acredite! Também somos fascinados pela loucura sanguinária da Condessa Elizabeth Bathory e ela está presente em nossas poesias em seu espírito sanguinário e quando compomos bebemos a ela.


BD: Como foi que escolheram a Shinigami Records para lançar “Walpurgisnacht”?

Renato: A Shinigami veio através da Débora Brandão da Metal Media, que faz nossa assessoria de imprensa.

Discutimos outras 3 propostas para lançarmos o CD em formato físico, sendo 2 selos europeus e um aqui mesmo do Brasil, mas acreditamos que a escolha da Shinigami representaria para a banda um “Plus” bem estruturado, pois sua reputação e credibilidade falam por si só e temos uma visibilidade real de estar presente na cena de heavy metal do Brasil. Quando alguém nos compra o CD e percebe o selo da Shinigami já sabe que o produto é de primeira qualidade.

Estamos satisfeitos com o que alcançamos dentro desse planejamento.


BD: Como tem sido a resposta de público e crítica para “Walpurgisnacht”? E verdade seja dita: vi muita gente tratando o ELIZABETHAN WALPURGA como uma das revelações de 2017.

Renato: Que bacana, não sabia desse tipo de comentário sobre nós, pois nos sentimos uns velhos cheios de coisas para começar. Isso nos honra, pois esse reconhecimento do público e da crítica não tem preço. Não tem preço um cara chegar depois do teu show e dizer “vocês tocam um som da Pooorra!!!”

Hoje tenho mais de mil “amigos” no Facebook e 70% deles vieram por causa da banda. Me sinto bem em estar próximo de nosso público e de me tornar amigo de alguns deles. Tanto no Brasil como no exterior a resposta do público é maravilhosa, muitos elogios!

Até agora só recebemos ótimas resenhas sobre o CD. Algumas críticas sobre a sonoridade, mas preferimos uma coisa mais crua, mais engastada para dar maior sentido as composições, ao clima das letras e criar um ambiente em que si possa acreditar que existam naquelas composições. Quando você escuta o som da ELIZABETHAN WALPURGA, você pode não escutar originalidade e não é esse o nosso propósito, mas você vai escutar um som que você não encontrará em outra banda por ai nem em 5 mil CDs diferentes que você escute aleatoriamente, não adianta procurar, porque não seguimos os padrões que outros músicos de Black Metal tocam, ou como seguem seus intuições e procuramos dar as nossas músicas uma identidade única, mas o conjunto delas retratam algo mais, como uma estória contada num filme de vários capítulos. Respiramos arte e fazemos arte em forma de música. Oferecemos a quem quiser ouvir!

Não recebemos quase nenhuma crítica escrita no exterior, mas em contraponto, estamos tocando mais nas rádios undergrounds dos EUA que no Brasil. Estamos tocando em algumas rádios em Portugal e já fomos destaque em outras rádios na Alemanha e Colômbia, por exemplo, mas gostaríamos de ter maior exposição fora do Brasil, pois temos potencial para isso.


BD: Já que falamos em público, a quantas andam os shows? Fale-nos como são as casas de shows, eventos e mesmo estrutura de sua cidade e vizinhanças.

Renato: Infelizmente, com a mudança de Breno para Portugal em 2015, para realizar seu Mestrado, ficamos muito restritos para fazer shows. Ano passado, ainda conseguimos no segundo semestre fazer dois shows porque ele estava aqui em Recife fazendo umas pesquisas relacionadas ao Mestrado dele, e também no lançamento do nosso CD em abril. Mas mesmo assim, convidamos nosso amigo Alejandro Flores, que nos acompanhou em duas músicas no show de lançamento do CD e fez o show no lugar de Breno em Caruaru, mas por causa de compromissos profissionais Erick teve de viajar muito a trabalho neste semestre e com já estamos com um guitarrista titular fora, tocar sem Erick seria bastante complicado, pois as músicas são muito complexas e com muitas variações, inversões e mudanças de andamento.

Ano passado, tivemos bons shows undergrounds com bons públicos, mas neste ano sentimos bastante pela crise que nosso país atravessa. Fui a shows de ótimas bandas nacionais e internacionais como headlines, que levaram pouquíssima gente pros shows, acho que dando prejuízo pros produtores. Mas vejo que isso está acontecendo em outras cidades onde rola uma cena mais forte de Metal, inclusive em São Paulo. O público de hoje está indo menos aos shows, mas isso não é privilegio do Metal nacional, pois a forma com que os jovens de hoje lidam com música e como essa música chega até eles mudou muito. Precisamos entender mais e criar algo como o “business do Metal” algo que se sustente e dê oportunidade às bandas locais, além de trazer bandas de fora da cidade para enriquecer o cenário, a cultura headbanger. Pelo menos aqui em Recife não temos lugares assim.

Em Recife, temos dois grandes festivais organizados pela mesma produtora que são nosso orgulho. O Abril Pro Rock há duas décadas e o Hellcifest em sua segunda edição, são espetáculos bem estruturados e atraem público de vários estados do Nordeste.

Fora isso, temos algumas pequenas produtoras que, por hora, estão passando por esse momento difícil. Antes tínhamos um local onde os headbangers da cidade sempre se encontravam nos finais de semana, independente de ter show ou não e esse lugar não está mais disponível. O Dokas era a grande casa do Metal pernambucano nos anos 90 e 2000.

Uma pena, pois atravessamos um bom momento da música extrema em Recife, com várias bandas novas lançando grandes músicas e bandas antigas voltando e outras gravando.

Mas estamos animados em poder tocar aqui em 2018 e em outras cidades. Estamos planejando uma mini turnê por algumas cidades do nordeste com a Lord Blasphemate, Agnideva e Pantáculo Místico e se conseguirmos concretizar será histórica essa tour!

Tem uma cena boa em Arapiraca, em Alagoas. Caruaru já teve uma cena Metal maior, mas mais hoje está com menos público. O interior do estado tem muito headbanger que dá valor a cena suas cenas locais e em lurares como Surubim, Toritama e Paudalho tem mostrado a força do interior. O mesmo acontece em Petrolina, que está em fase de crescimento da cena. Vejamos como será ano que vem e depois, mas queremos tocar onde nos convidarem e já temos um pré-convite para tocar num festival em São Paulo ano que vem. Se conseguirmos encaixar outras datas será bem legal poder tocar no sudeste pela primeira vez. Temos uma cena forte em Natal e Mossoró no Rio Grande do Norte, em Fortaleza e em Campina Grande na Paraíba, mas se compararmos com a cena dos anos 90, hoje não temos nem a metade do público que ia aos shows antigamente! Não tinha Youtube pra ver o show de casa comendo pipoca e tomando cerveja barata!!!


BD: Ainda sobre shows, existe alguma boa proposta de fora? E já está na hora do ELIZABETHAN WALPURGA se aventurar pelo eixo RJ-SP-MG, pois chega a ser uma lástima que uma banda tão boa fique restrita ao Nordeste.

Renato: Sim, nada de concreto, mas já fomos sondados para tocar num importante festival que acontece em São Paulo (estado). Se isso se confirmar podemos fazer uma tour fechando algumas datas, mas nenhum convite em Minas ou no Rio até o momento.

Mesmo pra tocar hoje aqui no Nordeste tem de ser muito bem planejado, porque as vezes acontecem outros eventos que diminuem o público nos shows.


BD: Apesar de “Walpurgisnacht” ainda ser bem recente, já existem planos para algo novo em 2018?

Renato: Nada concreto. Não sabemos se teremos tempo de gravar alguma coisa ou se as músicas já estarão prontas. Gostaria de colocar alguma música nova numa coletânea lançando um single ou um EP com algum cover que nos identifique. Falei com Hellhammer para ele lançar uma coletânea só com bandas do Nordeste, que estejam no contexto que ele enfatizou meses atrás quando lançou o manifesto da Nova Tempestade do Black Metal Nordestino, mas os planos estão voltados mais para realizarmos a maior quantidade de shows possíveis e gravarmos um vídeo clipe, até já escolhemos qual será a música, talvez um show ao vivo pra gravar um DVD, nada de concreto mesmo!


BD: Muitos podem querer dar palpites nessa pergunta, mas vamos apimentar um pouco: há algum tempo, muitos bangers têm dado uma de moralistas em relação ás artes degeneradas. Agora, como consequência, um projeto de lei de um deputado da bancada evangélica pode acabar censurando o Metal. O que acha disso? Não acha que esse conservadorismo moralista de muitos seria um sinal que a pessoal ouviu o Metal, mas não compreendeu a liberdade que ele nos concede?

Renato: Sim, eu acho que todo mundo pode dar seu palpite seja para elogiar ou para criticar mesmo no que quer que seja, e ninguém tem nada haver com isso, mas acho que ninguém tem o direito de denegrir a imagem de ninguém, de julgar ninguém pelo que elas escutam na música ou deixam de escutar, da forma como cortam seus cabelos, das roupas que usam, de sua cor, de sua raça, de sua idade, de sua identidade, enfim, não pactuamos com esse tipo de pensamento restritivo. É como se você pudesse descrever quem uma pessoa é simplesmente por algumas escolhas que elas fazem, num campo totalmente subjetivo, ou seja, ninguém é bom caráter por ser satanista e ninguém é mau caráter por ser cristão, na minha opinião! São outros valores que devem servir para uma pessoa fazer parte ou não de sua vida. Isso não nos faz melhores do que os outros, apesar de acreditar que a evolução pessoal de cada um, dentre outros 1777 argumentos, acredito que nos tornamos melhores que os outros quando comparamos nossas capacidades, habilidades, enfim, mas infelizmente caminhamos por caminhos diferentes e vivemos uma época onde a intolerância tem voz ativa e, por causa proporção que um post, pode-se atingir, nas redes sociais, pessoas potencialmente inocentes, mas sendo bem sincero, estou “cagando e andando” em cima do que essas pessoas pensam ou deixam de pensar. As pessoas passam muito tempo observando o que os outros fazem e esquecem-se de cuidar de seus projetos pessoais, vivem vidas que não são suas, tentam se enquadrar em alguma coisa maior que elas próprias, pois não se sentem seguras sentindo-se sozinhas e na minha opinião, quem se restringe a experimentar coisas novas e diferentes, não estou falando de Heavy Metal apenas, na vida de cada um sobre qualquer aspecto de sua vida, vai ficar pra trás no tempo e não vai perceber o quanto perdeu até perceber que não há mais tempo para experimentar mais nada!

Quem é você pra dizer o que eu sou, o que eu gosto, o que eu devo comprar, o que eu devo escutar, a que shows devo ir ou não ir e quem é você pra me julgar por isso? Sou muito maior do que o seu julgamento e qualquer um pode se sentir da mesma forma, basta ser autentico e agir com dignidade.

Vivemos no país do faz de contas, no país dos milhões roubados todos os dias, desde que o Brasil é Brasil e as piores necroses sempre foram e sempre serão as elites desse país podre e das suas milhares de fantasias!

O governo faz de conta que governa. A gente faz de conta que é cidadão. Os professores fazem de contam que ensinam e os alunos fazem de conta que aprendem. Os legisladores fazem de conta que legislam. Os juízes fazem de conta que julgam. Os advogados fazem de conta que acreditam que todos são inocentes. As pessoas fazem de conta que se respeitam e que respeitam os direitos dos outros, mas na verdade não respeitamos nem a nós mesmos! Veja que pais nós construímos!!!

O que vai mudar na vida de alguém se souber que eu sou fã de Lenine ou que Erick só escutou 4 ou 5 bandas de Black Metal durante toda sua vida? De que vale a pena saber se Mal’lak escuta mais Black Metal que qualquer outra coisa, ou que Breno não tem mais paciência para ouvir nada de Metal que foi feito depois do “The Gallery” do Dark Tranquillity?

Essas pessoas dão suas opiniões porque necessitam de atenção. Imagino o quão sozinhas são e de como são infelizes com seus cérebros engessados pela intolerância e pela falta de curiosidade de conhecer o novo, o diferente. Eu sei que também tem gente que é feliz de verdade sendo assim, mas não cabe a crítica a quem é diferente de você?

Antigamente, quando não existiam redes sociais, as relações de amizade eram bem mais próximas, então, quando algum amigo “dava uma de radical” na minha turma, por exemplo, a gente criticava o cara, chamava logo de “donzelo” ou de “tabacudo” e o cara meio que aceitava a crítica e não se habituava a ser da forma radical, que pensou ser a maneira certa de agir. Hoje em dia, o cara fala qualquer coisa lá e tem gente pra reverberar e pensar da mesma forma, dá respaldo aquilo e vira uma bola de neve, mas no fundo as pessoas compartilham suas opiniões e vivem as experiências que os ouros viveram e perdem suas essenciais, sua originalidade, pois devíamos ser únicos e mesmo assim convivermos com essa heterogeneidade de ser quem você é, de ser quem você quiser ser! Mas o mundo mudou bastante...

Não concordo com esse tipo de pensamento, mas não acho que ninguém seja pior ou melhor por causa disso. O que define a qualidade de uma pessoa pra mim são outros valores e a mim não importam quantas bandas de metal diferentes você conhece, se você sabe o nome de todos os integrantes de todas as bandas ou quantos milhares de CDs você tem, e sim como você trata seus amigos, sua família, como você (homem) trata sua esposa ou namorada, ou como trata qualquer mulher, como você educa seus filhos, como você se importa de verdade com seus filhos e não quantas vezes vocês fala “666 viva Satanás” por dia!!! Se importar se um som é “puro” ou “impuro”, não faz nenhum sentido lógico e por isso essas pessoas não têm a minha atenção, são como pessoas que na multidão que passam por mim todos os dias nas ruas, isso na minha opinião e não estou aqui querendo vender minha ideia a qualquer preço, mas apenas genuinamente expressando a minha opinião sobre radicalismos de qualquer parte que seja.

A maioria, pra não dizer na totalidade, de quem coloca o nome de um deus pra justificar qualquer coisa de seu caráter já não deve ser uma pessoa confiável ou equilibrada, em minha opinião. Estamos vendo a bancada evangélica totalmente envolvida com a corrupção no Brasil e as religiões ocidentais sempre tiveram tentáculos no poder, quando não representavam o poder ela mesma. Nunca se matou tanto em nome da religião quanto a igreja católica ao longo dos séculos, nunca se manipulou tanto a fé das pessoas e a verdade sobre as estórias criadas pelo poder para dominar mais ovelhinhas e as pessoas não pensam nisso e quando pensam tendem a pensar que é uma história de faz de conta e que está sendo contada num livro de história e que não foi real, que era em nome de Deus “e Deus está no comando”!!!! Não coloque deuses ou demônios para justificarem seus atos, seja você mesmo e as respostas serão mais claras em sua vida.

As pessoas ficam chocadas se você diz ser um satanista ou um luciferiano, mas não acham nada demais quando um padre católico é acusado de pedofilia! Se importam mais se o cara tem tatuagem do que se tem caráter, são valores que não fazem parte da minha personalidade. Como vou deixar de amar minha mãe só por ela ser cristã??? Quem você odeia mesmo???

O Rock sempre esteve interligado com o novo, a transgressão do que é consensualmente definido pelos padrões da sociedade. O Rock não morreu, são as pessoas que estão envelhecendo muito antes do tempo!


BD: Ainda tendo em vista a pergunta anterior, quais seriam as maiores diferenças entre os headbangers da época em que começaram e os de hoje?

Renato: Tínhamos valores diferentes, muitas diferenças como ainda temos hoje em dia, mas priorizávamos as afinidades. Havia mais valorização do ser humano, mas não acho que isso ocorra somente no meio do Metal, isso vem mudando na sociedade e as pessoas são banalizadas pelas outras hoje, não se valorizam nem se respeitam mais as individualidades, a não ser que você seja um dos que ditam as regras!!!

Me lembro de achar alguns garotos meio chatos na época da escola e nem os conhecia de verdade, mas quando sabia que o cara era headbanger a coisa mudava e passávamos por cima de pequenas diferenças, porque a identidade de escutar Metal era maior do que as outras 2112 diferenças que existiam entre dois possíveis amigos.

Há uma diferença em como as pessoas hoje constroem suas relações com outras pessoas, mas isso é evolução, não adianta ser saudosista, porque o trem já passou, já virou locomotiva e não adianta ficarmos feito os “corroas” da nossa juventude, que achavam muita ousadia homem ter cabelo comprido ou homem usar brinco ou camiseta cor de rosa!!!


BD: Bem, é isso. Agradecemos pela entrevista mais uma vez, e, por favor, deixe sua mensagem para seus fãs e aos leitores.

Nós que agradecemos a oportunidade e queremos deixar aqui nosso muito obrigado e que estamos sempre abertos e disponíveis para o Metal Samsara e para essa imprensa underground, que tanto tem nos valorizado.

Obrigado aos fãs, aos que acompanham a banda, aos que já puderam comprar nosso CD, aos que já escutaram nosso CD, ou que baixaram em sites piratas também, o que importa é que você dá valor ao que fazemos e vamos continuar mesmo a fazer, pelo tempo que quisermos fazer!

Mais novidades virão em 2018 e esperamos encontrar com vocês em nosso shows ano que vem! Fiquem ligados \m/

Somos uma banda de Heavy Metal do Nordeste do Brasil e não estamos aqui para brincar com você, estamos aqui para produzir arte de alto nível e não nos importa o julgamento que os outros façam dela, porque amamos o que fazemos e não fazemos isso para os outros, fazemos para nós mesmo!

Nós sangramos o seu som e sangramos nossos sentimentos, nossas almas em nossas músicas, porque somos a ELIZABETHAN WALPURGA, somos uma banda de Metal de Recife \m/


Renato Matos.
06/11/2017.

Ouça as faixas “Infernorium” e “Transylvanian Cry”:




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Imprensa: http://www.metalmedia.com.br/elizabethanwalpurga/index.php